
Pelos meus cálculos, acabo de completar três anos de viagens noturnas no ônibus convencional da Viação Cometa, poltrona 13. Nesta volta do feriado prolongado, o esforço mental foi grande para lembrar que a velha rodoviária do Tietê é agora destino de ida, não de volta.
Nesses três anos de ansiedade, medo, (muita) alegria e tristeza, acompanhei diversos ciclos da rodoviária. Uma grande reforma já transformou o espaço em shopping. São 74 lojas, incluindo tabacaria, Bob´s, Café Ritazza e muitos pontos que vendem Dunkin' Donuts. Na época do auge da crise aérea, vi o velho Tietê sendo freqüentado por gente bem mais abastada, disputando cadeiras na ala VIP da Cometa e da 2001.
Também acompanhei a invasão publicitária por ali, onde a Lei Cidade Limpa ainda não deu as caras. Desta vez, foi assustador: em quatro minutos de caminhada, cruzei com seis outdoors nos corredores do Terminal e da plataforma dos ônibus. Lacta, Kaiser e Sol disputam a atenção dos passageiros com propaganda atenta ao público-alvo: “Aproveite que você não vai dirigir e peça a sua bem gelada”, dizia um dos anúncios.
Já a decoração durante as festas e feriados nacionais é algo mais tradicional. O Terminal cresceu, mas o canteirinho com coelhos na páscoa, com bonecos pulando fogueira em junho e com o trono do Papai Noel made in Paraguai é sempre o mesmo. Levei um susto quando o pseudo-velho estava de fato na cadeirinha, aguardando crianças corajosas que quisessem abraçá-lo.
Freqüentando o espaço, descobri que o banheiro gratuito é bem mais distante da saída do Metrô e pouquíssimo sinalizado. Fica próximo ao Habib´s e à lan house. Por perto está um mundo a parte, com posto de saúde e assistência social pública.
Mas as melhores histórias deste percurso são mesmo a bordo do Cometa. Dividi a poltrona com muitas figuras interessantes: marido que trabalha em SP de segunda a sexta e volta para BH todo o fim de semana. Solteira desiludida com o ex-namorado que aceitou convite da tia para largar tudo em Minas. Jovem que abdicou da vida pessoal para ser missionária católica. Homem que dormia caindo no meu ombro. Mulher que insistiu para que eu aceitasse um pedaço do seu cobertor.
Na minha penúltima viagem de volta para BH, uma moça trazia um cachorrinho enrolado numa manta. O motorista não quis aprovar o embarque, preocupado em ser denunciado por algum passageiro. Ela insistiu, dizendo que sempre viaja com o animalzinho, bastante comportado, negando-se a sair da poltrona. A turma do ônibus, irritada com o impasse que só atrasava a saída, votou pela permanência do bicho.
Cheguei com três horas de atraso uma única vez. O caso foi sério e começou quando dois playboys deram falta da câmera digital após a segunda parada. Quando o motorista estacionou na delegacia para a revista, outro cara constatou que tinha sido roubado. Levaram 10 mil reais em dinheiro vivo, embrulhados num pacote de papel pardo...