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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A cidade é o palco!



De cara, o estranhamento é dos grandes... Um tapete vermelho em plena praça Sete? Palco montado no cruzamento mais agitado da Savassi?? Pois é... Logo soube se tratar de uma instalação do Festival Internacional de Teatro, o FIT ameçado de extinção que, pelo bem da nação e da classe artística de Minas, acabou saindo.... O trabalho é de Paulo Pederneiras, também cenógrafo do Grupo Corpo. Ainda não vi os espetáculos que devem ocorrer nestes espaços "vermelhos", mas já aplaudo a iniciativa capaz de quebrar a monotonia cinza da cidade...

Ontem de noitão estive na abertura do festival, com o trabalho K@osmos, da Espanha. Fui atraída pela mega-estrutura montada na praça da Estação, com show ao vivo estilo Bjiork e um guindaste gigante que serviu de sustentação para acrobacias feitas no ar por um grupo de artistas. Foi bonito, preciso admitir, mas passou longe de um trabalho que inspirasse o teatro. Muito deslumbre, pouco encantamento.... Os artistas convenceram como profissionais acrobatas, mas não como atores de expressão corporal ou emotiva... Mas, deixando de ser chata, claro que valeu a pena.

Devo conseguir acompanhar outras atrações internacionais programadas para o evento, mas temo que o show de pirotecnia e megalomania tire o espaço do teatro que comunica, emociona, convence. Vamos ver... (e torcer pelo contrário!)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Para entender Tom Zé

Quero pensar, meu bom rapaz
Numa boa
Não se dá um "sim" assim à toa
Quero pensar, meu bom rapaz
Numa boa
Talvez tocando no piano
Da patroa
Finalmente sonhar
Felicidade sim, sonhar, sonhar
Feliz se dar ao sonho
No raio e na raiz
Se ao sonho contraponho
Onde ponho meu nariz
Tristeza, não, tristeza fim
Tristeza bem longe de mim


(Da música QUERO PENSAR (A MULHER DE BATH), de Tom Zé, em ESTUDANDO O PAGODE - Na Opereta SEGREGAMULHER)

Tom Zé é um gênio. Como todos da espécie, diversas vezes incompreendido. Pois bem, esta é uma boa chance para desvendar uma de suas obras: sábado e domingo agora acontecem as apresentações finais e gratuitas da peça musical Não se dá um sim assim à toa, do projeto Galpão - Pé na Rua, inspirada no disco do compositor. Imperdível, divertida e inteligente!

(Aqui, explicações do próprio Tom Zé sobre a obra original....)

domingo, 13 de setembro de 2009

Festival de Bonecos

Domingo, Praça da Estação - Três anos depois, revejo uma turma de bonecos do Brasil reunidas em BH. Atração da festa, alguns são trazidos cuidadosamente de Pernambuco.... São marionetes dos mais variados estilos prontas para serem manipuladas pelos visitantes. (E haja fila!!) Além dos espetáculos quase simultâneos em três palcos, deu para espiar o processo de confecção destes expressivos personagens pelos mestres mamulengueiros. E ouvir um forró pra lá de arretado.


























































quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A ressurreição de Stuart






















No último sábado consegui testemunhar uma das grandes audácias do teatro brasileiro contemporâneo: uma fiel montagem da peça Maria Stuart, de Schiller, em pleno solo mineiro. Parece exagero, mas não é. Pense na loucura para deslocar de São Paulo um elenco de 13 atores e equipe técnica, cenário e figurino necessários a esta montagem com três horas e meia de duração. Pense no esforço prévio da produção para angariar apoio financeiro. E, por fim, pense no atual cenário desolador do mercado de teatro no país. Loucura, não é?

Mas o esforço “herculano" valeu apena: o espetáculo estrelado por Ligia Cortez e Julia Lemmertz teve enfim um público considerável no Palácio das Artes durante o fim de semana. [A divulgação prévia incluiu até uma participação divertida das duas no popular programa de entrevistas Brasil das Gerais!]

Admito que, ironicamente, o “grande teatro” não é o local mais indicado para espetáculos de teatro deste porte: a acústica atrapalhou bastante a compreensão das falas em alguns momentos. A peça também exigiu do público bastante fôlego para o mergulho a um texto clássico e denso sobre a verdadeira história de poder e ódio protagonizada no fim do século 16 por duas rainhas - Elizabeth, da Inglaterra, e Stuart, da Escócia.

Talvez a dose de teatro tenha sido cavalar demais para algumas pessoas que abandonaram o território no intervalo para o 2. ato. Mas claro que, para mim, valeu a pena. Sem falar na atuação impecável dos atores, eu soube que esta é apenas a segunda vez que o texto ganha uma montagem profissional no país. A primeira aconteceu no longínquo ano de 1955, quando Manuel Bandeira fez a tradução do texto original em alemão escrito no ano de 1800 para montagem do histórico Teatro Brasileiro de Comédia – TBC. Á época, com atores brilhantes como Cacilda Becker (Maria Stuart) e Cleyde Yáconis (Elizabeth).

UFA! Para encerrar meu momento pseudocritica de teatro, é impossível não comparar os figurinos utilizados nas duas versões da peça. Se a primeira foi fiel ao requintado estilo de época, esta optou por roupas básicas e atuais. Quem sabe uma forma sutil de nos lembrar da atemporalidade da arte e dos grandes dilemas humanos.

E chega de Camas Quadradas e Casais Redondos!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Inverno quente















Não é primeira vez que aviso no Tutu: festivais de inverno são os melhores momentos para se conhecer e visitar o circuito das cidades históricas. Minha "primeira vez" em Diamantina foi assim, em 2001. Entre Chicas da Silva, Juscelinos e Vesperatas, encontrei Wisnik e Elza Soares. De manhã, tarde e noite, era fácil trombar com alguma apresentação pública de teatro ou música, normalmente durante o encerramento das dezenas de oficinas que acontecem ao longo do mês de julho. Alunos, professores e grandes artistas sofriam juntos nas subidas e descidas das ladeiras barrocas: talvez um símbolo da "horizontalização" dos egos e da preocupação dos organizadores do festival em manter a coerência com a ênfase na formação. [Um pouco diferente do clima da FLIP, não é mesmo, Zeca??]

Meu sonho ainda é ter férias em julho para fazer oficinas e me sentir um pouco moradora nestas cidades. Conheço uma turma de pessoas ao redor dos 30 anos que, quando adolescentes, viveram exatamente isso na época áurea do festival da UFMG, ainda sediado em Ouro Preto. [Nesta matéria descobri que a Federal foi a primeira a lançar festivais de inverno, em 1967. E que a última “temporada” em Ouro Preto terminou em 1999, dando origem aos festivais da própria prefeitura municipal, da UniBH e da UFOP.]

Este estilo de organização de evento parece mesmo ter caído na graça dos mineiros. Segundo esta nota publicada no Overmundo, a onda se espalhou pelos quatro cantos do estado – até os de Juiz de Fora e de Araçuaí, que não têm lá um apelo histórico junto aos turistas, já estão consolidados.

**

Tudo isso para dizer que este post veio tarde: os festivais estão na rapa do tacho. Os principais terminam dia 30 de julho. Mas ainda dá tempo de sentir a brisa fria da cultura desses lugares. Os sites trazem toda a programação. Seguem os meus destaques:

Ouro Preto

Sexta-feira
22h - Show Marina Machado – Tempo Quente
Praça da UFOP

Sábado
20h30min - Show Kristoff Silva – O grão da voz
Teatro Ouro Preto – Centro de Artes e Convenções da UFOP

24h - Show Zé da Guiomar (Samba)
CAEM – Praça Tiradentes

Diamantina

Sábado
22h – Grupo Voz & Companhia - Circo Místico
Teatro do Instituto Casa da Glória – IGC/UFMG

Domingo
21h - Grupo Galpão - Till, A saga de um herói torto
Praça Dr. Prado

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Isto é Brasil












Voltei. Após três semanas e três países, trago na bagagem de memórias

um deserto
um salar
um cume de montanha inesquecível
uma capital que buzina 24 horas
um centro de cidade com semáforos eternamente quebrados
uma imagem de Jesus Cristo negro
um índio Pachacuti
duas catedrais dos séculos 16/17 repletas de espelhos no altar
um vento gelado de menos 12 graus
trinta paisagens maravilhosas

Trago também os sentimentos de indignação com a longa história de exploração econômica e simbólica comum aos países latino-americanos. Portugueses e espanhóis que arrancaram a civilidade dos povos pré-colombianos à força e, durante séculos, contaram com um arsenal de armas para impor uma visão de mundo estranha e absurda aos “ateus”.

E como o retorno é sempre uma nova chance de enxergar melhor, esses dias já propiciaram vivencias do que há de mais bonito e mais grosseiro neste caldeirão chamado Brazil.

- Como explicar a violência da apreensão e da alegria relacionada ao nosso futebol? O apito de fim de partida no jogo da Copa do Brasil foi a deixa para um disparo agressivo de xingamentos por janelas das ruas de São Paulo; buzinas insistentes; fogos sem fim. Uma “festa” que, sinceramente, custo a entender.

- Agora, o encantamento. Neste fim de semana, o Grupo Galpão estreou em BH a peça Till, a saga de um herói torto. Mais de 15 mil pessoas arrumaram um cantinho no gramado e nas escadas da praça do Papa em plena lua cheia para festejar a existência de um teatro de rua verdadeiramente comprometido com o próprio teatro. E com o público, claro.

Guiada pelo trabalho, sigo em breve pelas estradas de Minas. Aguardem novas aventuras!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Férias!


















Tempo de sentir o vento, o frio, o calor. Na pele. Tempo de dar um tempo, respirar novos ares em novas altitudes. Férias do trabalho e, provavelmente, da vida virtual. Sigo real por aí. Até início de julho volto a esquentar a água para o Tutu. Grande beijo aos amigos!

[A derradeira dica: quem estiver por BH já tem programas excelentes a partir de hoje, com o início de mais uma edição do Festival Internacional de Bonecos!]

quinta-feira, 9 de abril de 2009

"Como seria o Reveillon de 2441?"



Ainda me surpreendo com o coração grande do Galpão Cine Horto. São vários projetos ao longo do ano que, na essência, mostram a vocação do espaço para o acolhimento, a residência, o experimentalismo. Foi assim durante a semana passada, em mais uma edição do Galpão Convida. Depois de uma pesquisa de dois meses no espaço, os paulistas do Grupo XIX de teatro (Hysteria, Hygiene e Arrufos) e os mineiros do Grupo Espanca! (Por Elise, Amores surdos e Congresso Internacional do Medo) criaram um espetáculo a partir da seguinte indagação: "Como seria o Reveillon de 2441?".

Os grupos fizeram questão de enfatizar que se tratava de um processo em construção. Mas, sinceramente, o resultado final é mil vezes superior a tantas outras peças que entram em cartaz com pompa e preço caro. Destaque para o cenário coberto de gelo e incrementado com aparatos multimídia – como o telão que projetava paisagens bucólicas e tempestades do lado de fora da porta do apartamento cenográfico.

Abaixo, um breve comentário pessoal sobre o trabalho – que talvez só seja compreensível aos que tiveram a chance de assistir....

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Feliz conjunção entre cenário, atores, texto e técnica, Barco de Gelo é uma alegoria convincente do futuro da espécie humana. Tão longe, tão perto: os séculos do tempo futuro apresentados em cena não mostram a evolução da inteligência do homem como idealizamos. Como protagonista da vida moderna, a tecnologia não é capaz de suprir a solidão e as dificuldades do relacionamento com o outro.

A história leva a acreditar que o excesso de estímulos tecnológicos e sensoriais aos quais seremos submetidos na sociedade ultramoderna acabam por afastar o homem de suas limitações. Como numa espécie de ditadura da alegria, não nos parece permitido refletir ou sofrer. Mas aquela festa de reveillon apresentada em cena é marcada por elementos que rompem definitivamente com esta monotonia/adormecimento na vida do grupo de amigos. O clímax está no número teatral – com o texto da peça As três irmãs, de Tcheckov, originário de uma “época em que ainda existiam galinhas”- apresentado por uma trupe de atores contratados por um dos convidados da festa.

A apresentação se diferencia de todas as outras cenas por não apresentar um “delay/atraso” entre ação e reação nos gestos e falas das personagens. Sinal para um recado do grupo: o teatro pode ser este espaço de encontro real, intenso e verdadeiro com o outro. Mas o fato é que, provocando reações diferentes por parte dos convidados da festa, a “mini peça” ganha um sentido ainda mais intenso para o personagem que descobre a metáfora do gelo. Brincando de triturar o objeto no liquidificador, experimenta-se a comunhão e a percepção de que a passagem de “estados” – sólido, liquido, gasoso – é inerente a natureza humana. Deve, portanto, ser celebrada e respeitada.

É a partir deste estalo que, enfim, a festa se consome.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Você viu?

“Furei” a Folha de S. Paulo com o aviso sobre a Mostra Contemporânea de Arte Mineira ;-). Mas levei um susto ao ler a matéria de capa da Ilustrada. Com enfoque no teatro produzido em Minas, a matéria ouviu importantes produtores e atores radicados aqui. Mas “pestenção” no trecho da fala creditada a Eid Ribeiro (olha a responsabilidade....):

“Aqui não se tem nada para fazer, a não ser ir para o bar beber. Daí sobra tempo para criar, experimentar. Você não está correndo atrás de nada, não tem data para estrear”, acrescenta Eid Ribeiro, co-curador do Festival Internacional de Teatro, Palco e Rua, que acontece a cada dois anos na capital mineira.

Com assim “aqui não tem nada para fazer”? Gente, que planeta é esse? Desde quando ator não batalha feito maluco, correndo atrás de patrocínio e louco para estrear uma peça? Fiquei pasma.

*

Vale ler a reportagem inteira e principalmente o artigo do Chico Pelúcio [exclusivo para assinantes] sobre o trabalho do Galpão Cine Horto, a sede-escola do Grupo Galpão e um dos lugares mais encantados da cidade. Puro privilégio, tenho freqüentado este espaço semanalmente.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Minas no Pompéia







Uma chance incrível de saborear Minas sem sair de São Paulo. De 18 a 23 de novembro, o Sesc Pompéia recebe a Mostra Contemporânea de Arte Mineira. Pelo que já espiei no site, a escolha dos embaixadores da cultura do estado foi bastante eclética e plural. Na música, vai do pop de Pedro Moraes ao samba de roda mais alternativo de Aline Calixto, passando pelo rap de Renegado a ícones da cena independente como Porcas Borboletas, Érika Machado e Makely Ka. [De novo, ele! rs]

O teatro estará bastante presente, com um dos projetos mais prestigiados do Grupo Galpão: o Festival de Cenas Curtas. Há trabalhos que eu vergonhosamente ainda não conheço, como a Caixa Clara e o Grupo Miguilim de contadores de historias. A festa toma conta do templo de Lina Bo Bardi durante o cortejo de bonecos gigantes de Mariana e nas apresentações de três grupos de Congado do interior.

Eu bem que gostaria de pegar uma carona na calda do Cometa até São Paulo e, ainda assim, estar cercada de montanhas.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Festival dos festivais






Comparar a programação cultural nos jornais de sexta-feira de Beagá e SP é mesmo covardia. Mesmo os filmes mais bacanas off-Hollywood demoram a chegar por aqui e saem rapidinho de cartaz. Mas os mineiros levam uma grande vantagem quando o assunto é festival de cultura. E nesse campo, a dimensão reduzida da cidade é fator fundamental para o sucesso de público nas programações intensas de uma ou duas semanas que tomam conta dos principais espaços culturais. Uma contaminação festiva muito especial.

Desde que me mudei, vi espetáculos pra lá de vanguardistas no Festival Internacional de Dança, filmes do Quênia no Festival de Arte Negra e agora, mais recentemente, peças muito refinadas do Chile e Espanha no Festival Internacional de Bonecos. [Os links levam a alguns registros passados neste blog.]

Agora, chegou o esperado Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte, já na 9ª. edição. De hoje ao próximo domingo, peças de Minas e do outro lado do mundo ocupam os palcos da cidade. A novidade vai ser um espaço maior para peças da América Latina, com grupos da Argentina, Bolívia, Colômbia, Cuba, Equador e Peru.

E como sempre nem tudo são flores, testemunhei a guerra por ingressos no primeiro dia de vendas e preciso adiantar aqui que só sobrou a rapa do tacho. Ainda bem que toda noite terá intervenções e espetáculos gratuitos de rua.

E mais jabá: O [já famoso] Grupo de Coco Ouricuri encerra o FIT no domingo dia 6, no Parque Municipal, às 21h30. A programação toda está aqui. uma bela desculpa para fazer turismo em Belzonte.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Palácio Rooselvet

Da praça Roosevelt, em São Paulo, para o Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Os cenários são antagônicos em diversos aspectos. A praça, no topo da lista de monumentos que devem ser derrubados na opinião de “urbanistas” chapa branca, mantém o ar marginal apesar do recente assédio por parte de artistas e público descolado. O agito foi provocado pela presença de grupos de teatro alternativos que ali se instalaram, com destaque para Os Satyros e Os Parlapatões.

Já o Palácio das Artes, fundado em 1971, é o espaço mais nobre de BH para apresentações de óperas e orquestras. Com capacidade para toda a high society mineira, fica fácil imaginar o clima formal do espaço do Grande Teatro.

A fusão desses mundos aconteceu há duas semanas, quando Os Satyros apresentaram a contemporânea versão de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, para uma platéia lotada no Palácio das Artes. A atriz Norma Bengell – convidada especial como Madame Clecy, papel que já interpretou em 1976 – parece ter percebido a dimensão quase histórica da curta temporada em BH. Por um problema de saúde, foi proibida de viajar. Mas, como não podia ser diferente, transgrediu a ordem médica. Na hora dos aplausos, chorou de emoção.

Apesar dos vídeos, da música de Bjork e da seqüência frenética de cenas desta superprodução bancada pelo Itaú Cultural, a história foi respeitada. O frio na espinha também é o mesmo que senti com a montagem do Grupo Tapa, dos idos dos anos 90, no teatro da Aliança Francesa. À época, eu e minha prima, pré-adolescentes, tivemos pesadelos diários com vestidos de noiva e custamos a perdoar nossas mães bicho-grilo pela inconseqüência de nos “obrigar” a assistir a peça. Pura bobagem. Agora sei que, independentemente da idade, ninguém escapa do choque provocado por Nelson Rodrigues. Aliás, não deve escapar.

domingo, 27 de abril de 2008

Virada à mineira

Estive nas duas edições anteriores da Virada Cultural em São Paulo. Na primeira, comecei a noite numa roda de fandango de Cananéia (litoral de SP) com amigos do grupo Jovens Fandangueiros do Itacuruçá, no Mercado Municipal. Eles não puderam levar microfones nem tiveram espaço reservado para tocar. De lá, encarei uma fila gigantesca no Teatro Municipal, mesmo sem saber qual seria a atração. Consegui entrar para a performance ultra moderna de um grupo de teatro e por fim, passada a euforia inicial, abandonei as poltronas aveludadas. Se por um lado gostei de ver o pessoal da periferia aproveitando o direito de entrar ali, tive raiva da falta de critério na escolha do espetáculo. Era muito ruim.

Ano passado cheguei atrasada para uma apresentação de rua do Ballet da Cidade, que dançava ao som de músicas do Chico Buarque. Quis me aproveitar desta eterna condição de baixinha para furar a multidão, mas quase levei porrada. O jeito foi me contentar com um ombro dançante e outra perna voadora.

Ainda peguei O Teatro Mágico – que finalmente passei a enxergar como um dos principais fenômenos de sucesso entre adolescentes despontado do circuito alternativo. Mas depois de muito massacre para tentar um espaço em frente ao palco, acabei assistindo ao show pelo telão. A menina do meu lado, com o nariz de palhaço que identifica os fãs do grupo, subiu no ombro do namorado para ter uma visão mais apurada... do telão.

Toda essa introdução para ponderar que o melhor da Virada Cultural é viver a cidade e desfrutar do espaço público. E que, por coincidência, nesta noite de sábado foi possível sentir esse clima de noite em festa aqui em BH. Até o próximo domingo, o parque Municipal iluminado de verde recebe shows noturnos de bandas que já são sucesso no circuito independente em Minas e outros estados. O projeto é o Conexão Vivo (antigo Telemig Celular). Foi assim que conheci um som estilo Orquestra Imperial feito por doidos bacanas de Brasília chamados Móveis Coloniais de Acaju. (!!)

A desvantagem em relação à Virada paulista é que os ingressos não são gratuitos. Custam de 5 a 10 reais. Ao menos é possível garantir que a visão do show será ao vivo...

terça-feira, 22 de abril de 2008

Galpão: primeiro encantamento














Era o último dia de uma curtíssima temporada de repescagem da peça “Pequenos Milagres”. Já sabíamos que os ingressos estavam esgotados, mas nos firmamos na possibilidade de que os 30 cortejados com cortesias não aparecessem no teatro. Encaramos a fila com resignação e alguma cara feia para o amigo do amigo do amigo que entrava na nossa frente.

Mas era noite de milagres. E conseguimos entrar. Em seguida, fomos tomados pelo alumbramento de uma montagem do grupo Galpão. As quatro histórias da peça foram escolhidas entre 600 recebidas durante a campanha Conte sua História, quando a população de Minas foi convidada a enviar cartas e e-mails – anônimos ou não – descrevendo uma vivência pessoal com alguma pontinha de verdade.

Cabeça de cachorro, que amarra as outras três histórias, me transportou para o caótico centro de São Paulo com apenas seis atores em cena. Os poucos elementos do cenário foram suficientes para restituir a essência da praça da Sé – ou praça “do Zé”, como pensava o menino protagonista. Aos 11 anos, tomou um ônibus sozinho partindo do interior com uma curiosa incumbência do pai: levar a cabeça do cachorro que mordeu o irmão mais novo para a vigilância sanitária de São Paulo. Perdido naquela confusão de pregadores religiosos, homens de negócio, vendedores e assaltantes, ele descobre que pode ser dono do próprio caminho.

Por fim, a peça é um presente ao público pelos 25 anos do Galpão. De forma singela, consegue lembrar que o cotidiano pesado de gente pobre deste país também está cercado de estrelas e sonhos que se realizam.

Um alento para tantas camas quadradas e casais redondos, espíritos penados e virgens de 40, como comentei neste post.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Semana santa barroca

Há dois anos começava meu périplo pelas semanas santas de Minas Gerais. Comecei de trás para frente – naquele ano, acompanhei em Mariana a procissão de páscoa, com as ruas cobertas de tapete de serragem colorido. Os desenhos variam da bandeira do Brasil ao rosto de Cristo. Mas juro que, apesar da confusão de referências, o visual é maravilhoso.

Neste feriado, foi a vez de passar pelas cidades históricas como trabalhadora: cobri celebração de lava pés em Mariana na quinta e aquela maluca encenação da Paixão de Cristo em Congonhas na sexta-feira. Uma experiência pra lá de barroca. Em Congonhas, os atores e 250 figurantes encenavam as 35 cenas bíblicas em cinco palcos ao som de música sacra cantada ao vivo pelo coral. Os figurinos são super requintados e a cena da crucificação é assustadoramente realista.

A população dessa cidadezinha vive em função dos preparativos e ensaios para a semana santa muito antes do Carnaval acabar. Coisas das Gerais.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Quem quer ir ao teatro?

Mesmo em São Paulo, considerada por aqui a “meca do consumo cultural”, muitos teatros fecham por falta de público. Ou tantos outros grupos teatrais bacanas e sérios deixam de funcionar por falta de recursos e patrocínio... Por esses motivos, as campanhas de popularização do teatro são sempre bem-vindas.

Em BH, a campanha anual de acesso ao teatro é bastante divulgada. Começou semana passada e, pela 34º vez, estará em cartaz por dois meses, com 80 peças no cardápio e ingressos por R$ 8. Mas a programação foi um balde de água fria – ao menos entre as opções desse fim de semana. A lista completa está no site do Sinparc. Refletindo o que esteve em cartaz em 2007, temos esses incríveis títulos:

10 MANEIRAS INCRÍVEIS DE DESTRUIR SEU CASAMENTO

2 CASAIS EM MAUS LENÇÓIS

A COMÉDIA DOS SEXOS

A VIRGEM DE 40 – AGORA OU NUNCA

ACREDITE, UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM

ASSENTA QUE LÁ VEM BARRACO

CAMAS REDONDAS,CASAIS QUADRADOS

...

Só peças do pessoal que sonha ser Miguel Falabella.... e nada do Grupo Galpão. Vou precisar de dicas de amigos mineiros para achar pérolas entre camas, casais, espíritos e muito, muito barraco.