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domingo, 27 de abril de 2008

Virada à mineira

Estive nas duas edições anteriores da Virada Cultural em São Paulo. Na primeira, comecei a noite numa roda de fandango de Cananéia (litoral de SP) com amigos do grupo Jovens Fandangueiros do Itacuruçá, no Mercado Municipal. Eles não puderam levar microfones nem tiveram espaço reservado para tocar. De lá, encarei uma fila gigantesca no Teatro Municipal, mesmo sem saber qual seria a atração. Consegui entrar para a performance ultra moderna de um grupo de teatro e por fim, passada a euforia inicial, abandonei as poltronas aveludadas. Se por um lado gostei de ver o pessoal da periferia aproveitando o direito de entrar ali, tive raiva da falta de critério na escolha do espetáculo. Era muito ruim.

Ano passado cheguei atrasada para uma apresentação de rua do Ballet da Cidade, que dançava ao som de músicas do Chico Buarque. Quis me aproveitar desta eterna condição de baixinha para furar a multidão, mas quase levei porrada. O jeito foi me contentar com um ombro dançante e outra perna voadora.

Ainda peguei O Teatro Mágico – que finalmente passei a enxergar como um dos principais fenômenos de sucesso entre adolescentes despontado do circuito alternativo. Mas depois de muito massacre para tentar um espaço em frente ao palco, acabei assistindo ao show pelo telão. A menina do meu lado, com o nariz de palhaço que identifica os fãs do grupo, subiu no ombro do namorado para ter uma visão mais apurada... do telão.

Toda essa introdução para ponderar que o melhor da Virada Cultural é viver a cidade e desfrutar do espaço público. E que, por coincidência, nesta noite de sábado foi possível sentir esse clima de noite em festa aqui em BH. Até o próximo domingo, o parque Municipal iluminado de verde recebe shows noturnos de bandas que já são sucesso no circuito independente em Minas e outros estados. O projeto é o Conexão Vivo (antigo Telemig Celular). Foi assim que conheci um som estilo Orquestra Imperial feito por doidos bacanas de Brasília chamados Móveis Coloniais de Acaju. (!!)

A desvantagem em relação à Virada paulista é que os ingressos não são gratuitos. Custam de 5 a 10 reais. Ao menos é possível garantir que a visão do show será ao vivo...

domingo, 13 de abril de 2008

Coco, congado e pão de queijo

Desta vez, saquei o celular do Eduardo para mostrar em imagens algumas outras cenas (ainda) muito peculiares da vida mineira. Domingo passado acompanhei uma edição do agitado projeto “O Museu Guardas”, no Museu Mineiro. Cinco guardas de congado de várias regiões de Minas entraram cantando e batendo tambores dentro do museu em reverência às imagens sacras do barroco mineiro.

Lá pelas tantas da tarde deveria acontecer o lançamento do CD “Os cocos”, do grupo de coco Ouricuri. Com a ameaça de chuva, eles bateram os tamancos e tocaram a versão acústica do CD dentro da sala nobre do casarão, lotada de cruzes e santos dourados - alguns em suportes giratórios - do século 18.

No meio dessa bagunça, com menino correndo pra tudo quanto é lado, o diretor do museu propôs uma performance pra lá de autêntica. Quatro convidados da área de artes plásticas preparam uma receita deliciosa de pão de queijo para todo mundo. Enquanto isso, qualquer um podia se servir de queijo meia-cura. Voltamos para casa com a receita impressa do venerado quitute e com novas interrogações provocadas pela arte contemporânea.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ambulância tira Rei Momo da avenida













(Imagens minhas, feitas com celular e em baixa resolução - a única pretensão foi mesmo guardar alguma lembrança desse Carnaval...)

O título acima é um ensaio para uma manchete que não li nas edições carnavalescas do tablóide Super Notícia. Não, não pretendo roubar a vaga de ninguém na redação do jornal, mas sim chamar a atenção para um desfile de escolas de samba em Belo Horizonte que quase ninguém ouviu falar...

No domingo, muitíssimo animada e ainda foca na cidade, fui até a afastada Via 240, já divisa com Santa Luzia, conhecer o desfile das escolas da noite. Esperava muito tumulto até conseguir um lugar na arquibancada, mas foi fácil achar espaços vazios. Por azar, pegamos apenas a despedida da Unidos do Onça, com seu já consagrado refrão “Libertas que também será UAI”. Sinceramente, esse samba enredo soou melhor que o hit da Acadêmicos de Venda Nova, que entrou em seguida com uma homenagem ao Rio das Velhas.

As escolas definitivamente não têm recursos para fazer um desfile que possa ser comparado aos do Rio ou de São Paulo. Mas ainda assim vale lembrar da enorme distância entre os dois mundos: a Acadêmicos de Venda Nova, que por fim foi campeã, desfilou com 350 integrantes, 12 alas e três carros alegóricos. A Rosas de Ouro, que ficou em 4. lugar em Sampa, teve cerca de 3.800 componentes divididos em 24 alas, além de cinco carros alegóricos.

Mas gostei do programa. Descobri um mundo ligado a comunidades da periferia da cidade, com sambistas de verdade, mulheres lindas, bateria afinada e uma força de vontade enorme. A platéia estava protegida embaixo de um toldo bacana, mas todas as escolas encararam a avenida embaixo de garoa.

O amadorismo esteve mais ligado à produção do que aos desfiles em si, em minha opinião. No longo intervalo entre as escolas, a “animadora” era uma locutora da rádio Liberdade, que, vestida de capa de chuva, gritava no microfone perolas como “Quem tá sentado vai virar o quê? Pudim de quiabo!”. Seguramente, a tentativa saiu pior que a encomenda – nem mesmo o DJ acertava nas músicas que seguiam as frases de auditório da nossa radialista. A marchinha “Cidade Maravilhosa” foi intercalada por sucessos lentos de Ivete Sangalo (E quando eu penso em ir embora/ Você não quer me dar razão/ Me diz que eu tô jogando fora/ O Amor que tem no coração) e hits que sequer são brasileiros, como “La Barca”, do consagrado Luis Miguel (Dicen que la distancia es el olvido/ Pero yo no concibo esa razón). Antes que pegássemos no sono, a locutora voltava a gritar, destacando o nome de todas as autoridades municipais presentes no evento...

Ao final do desfile da turma de Venda Nova – o único que assisti inteiro –, mais um incidente curioso. Uma ambulância entrou na pista, levou o Rei Momo do Samba Belô 2008 e partiu acelerada. A meia-explicação foi dada pela radialista: “Nosso Thiagão, o Thiago Araújo, infelizmente teve um problema e não vai sair no passeio da Corte Real Momesca”. Para nossa surpresa, o carro parou alguns metros à frente, ainda na avenida. De dentro da ambulância, o alegre Thiagão foi convidado a dar seu depoimento para o público: “Aí, pessoal, não quero saber de ninguém sentado!”. Que assim seja. Foram suas últimas palavras antes da arrancada final do automóvel.

Minha aventura parou por ai. Fui dormir com um zumbido no ouvido e um refrãozinho chinfrim sobre o rio das Velhas e Peter Lund, “o explorador”. Das suas cavernas, salve o grande precursor”!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Depois que a banda passou...








Acabou a TEIA. Foram nove dias intensos de trabalho, festa e encantamento.

A oficina de jornalismo cultural independente articulou um grupo de quatro malucas e um maluco com muita vontade de pôr a mão na massa e revolucionar o “fazer jornalístico”. Como todos os 100 participantes estavam principalmente envolvidos com a cobertura via Internet, colaborando com a Agência TEIA 2007, concluímos que era urgente produzir algo para aqueles que não têm acesso a computador. Claro que boa parte dos sonhos não foi colocada em prática. Mas conseguimos rodar um informativo diário, feito em folha A4 dobrada, com tiragem de 500 exemplares, destacando as pessoas que aqui estavam, suas histórias e perspectivas. Deu certo! A reação de quem recebeu o informativo em mãos foi ótima. No terceiro número, já nos pediam os anteriores e sugeriam mil pautas...

Publicamos desde a fala de abertura do Gilberto Gil à oficina de penteado afro, passando pelos problemas na organização do evento e pela reivindicação dos índios do Ponto de Cultura Índios On Line, que formalizaram o pedido de um Cineclube para o Ministério da Cultura. Uma loucura.

Tive momentos como ouvinte, deixando a paranóia de “cobrir” tudo o tempo inteiro. Para compartilhar com os amigos de longe, recorro ao bloquinho de anotações e faço aqui um esforço de memória para registrar os melhores momentos...

Suassuna

“Em primeiro lugar, quero pedir desculpas. A minha voz é feia, baixa e rouca. Atualmente também tenho pigarro. Quando fui secretário de Miguel Arraes ele também pigarreava. E as pessoas pensavam que eu imitava o chefe. Não tem coisa pior.”

Delicia ouvir Ariano Suassuna falar. É um show-man. Se bem que chamá-lo assim seria uma ofensa. O homem é extremamente nacionalista e fervoroso defensor da cultura brasileira. A aula dele, que inaugurou o Seminário Internacional Saberes Vivos, devia ser sobre o barroco, mas até metade da manhã ele falou do pigarro e contou por que vestia aquela combinação de roupas – camisa vermelho-escuro com calça preta. Disse que, inspirado por Gandhi, resolveu não comprar vestuário dos “colonizadores”. Arrumou uma costureira chamada Edith. Mas raramente consegue uma combinação razoável. Por isso, costuma ser barrado em eventos sociais. “Não tenho cara de autoridade. Acho isso bom!”.

Em seguida, emendou com a história do dia em que ligaram da Academia Brasileira de Letras para pegar as medidas para a tal “roupa dos imortais”. Ariano quis que Edith fosse a costureira. Não deu certo. E se disse indignado com o sotaque do carioca que fez a ligação. “Aquilo não é sotaque brasileiro. É sotaque de aeroporto”, afirmou, brincando com o “a Infraero inforrrma... vôo 123, com destino a Brasiiiiliaaaa...”.

Na parte séria da aula, criticou Oscar Niemeyer – “pode ser um ótimo arquiteto, mas não brasileiro. Ele transformou Brasília num mausoléu.” – e enalteceu Aleijadinho e Gabriel Joaquim dos Santos, o arquiteto autodidata que construiu a Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, perto de Cabo Frio (RJ). Esse “cabra macho da peste”, como classificou Suassuna, criou uma casa sem muro, aproveitando lixo doméstico, principalmente cacos de vidro e louça. Até sua morte, em 1985, fez luminárias, molduras, estantes, mosaicos.

Apaixonado por futebol, Suassuna elogiou profissionais que fazem sua atividade como “Robinho joga”. Terminou elogiando Daiane dos Santos, “outra grande pequena brasileira”. “Ela deve ter sofrido um preconceito danado. Primeiro, porque é mulher. Segundo, porque é negra. Terceiro, porque é pobre. Mas ela faz ginástica como Robinho joga”.

Gil

A programação da TEIA foi intensa demais. Organizada em oficinas, mostras, debates e apresentações, dispersou o público muitas vezes, perdido nos diversos locais simultâneos em que tudo acontecia. Uma das atividades da programação era “Cultura digital – Que porra é essa?”. Resolvi conferir. Eis que o debatedor... é nosso ministro Gilberto Gil!! Figura, microfone estilo Serginho Groisman, conversou com a pequena multidão largada em almofadas num espaço abafado da Casa do Conde.

Além de receber críticas, apontou a dificuldade em enfrentar os interesses por trás do monopólio da radiodifusão no Brasil, pregou o compartilhamento de conteúdos na web e defendeu que o direito ao acesso à cultura deve ser mais importante que o direito autoral. [Pena que declarou recentemente a intenção de largar o Ministério....]

Ação Comunitária do Brasil

Essa ONG, que existe há quase 40 anos no complexo da Maré e em Cidade Alta, no Rio, virou Ponto de Cultura e tem feito um trabalho incrível com os jovens dessas favelas. Foram eles que coordenaram a oficina de penteado afro, procurada por brancos e negros. Também venderam roupas lindas, feitas com silk e bordados que remetem à memória dos morros.

O grupo se apresentou no teatro Francisco Nunes com um show incrível, que durou duas horas. Meu conceito de capoeira finalmente chegou ao patamar merecido. Arrasaram. Teve ainda muita dança – maculelê, jongo, samba – e música, cantada por uma baixinha arretada, dona de uma voz incrivelmente forte.

Balanço...

Fiquei feliz em constatar que o dinheiro público anda apoiando iniciativas desse porte. Com 60 mil reais por ano para Pontos de Cultura como o maracatu Leão Coroado e o projeto Vídeo nas Aldeias, parece que finalmente estamos caminhando rumo à descentralização do acesso a políticas públicas de cultura.

A sensação de que “um outro mundo é possível” é muito mais latente durante a TEIA do que nos dias das duas edições do Fórum Social Mundial que presenciei (Porto Alegre 2003 e Caracas 2006). Ao menos, é o meu registro.

Em tempo: as fotos são de Élcio Paraíso, fotógrafo oficial da TEIA. Mais imagens em http://www.flickr.com/photos/teia2007.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Em nome da arte













Antes que a onda de atividades do TEIA ocupe todo meu tempo, precisava registrar aqui minhas duas experiências no Festival Internacional de Dança, que aconteceu de 24 de outubro a 4 de novembro em vários cantos da cidade. Com o lema “Dança para todo mundo”, pensava que o FID pudesse trazer espetáculos mais palpáveis, que colaborassem com a formação de público - os ingressos custavam só R$ 2. Ledo engano. Muitas das peças selecionadas (Brasil, Quênia, França, Dinamarca, Austrália e Argentina) trabalharam mais com idéias conceituais sobre dança do que a dança em si.

Ainda assim, gostei de fazer parte do público sempre lotado dessas apresentações. Em “Estudos para impressões”, de Denise Stutz, do Rio, cheguei atrasada no Museu Mineiro e batalhei fervorosamente por um ingresso remanescente. Consegui. Estranhei que o “palco” fosse dentro de uma das salas com obras de santos barrocos, mas lá estava a dançarina, totalmente nua, fazendo barulhos estranhos com a boca. O cenário era formado por seis lâmpadas no chão. E só. Muito lentamente, contorcia o corpo e os braços, sempre de pé. Foram 20 minutos até que ela se vestiu e saiu. As pessoas se olharam. O primeiro aplauso demorou a sair.

No dia seguinte, a reação foi bem mais radical. Com o nome “A vida enorme”, a apresentação assinada pela coreógrafa francesa Emmanuelle Huynh foi uma performance que alterou os ânimos da platéia lotada do Palácio das Artes, com capacidade para 1707 pessoas. Começou com longo atraso, mas o público de descolados, dançarinos e donas-de-casa esperou calmamente. Perfume, saltos, expectativa, risos e cochichos. Enfim, começou. Cortinas abertas, aplausos. E seis caixas de som ocupavam o centro do grande palco, sem qualquer sinal de vida humana.

Eis a cena:

As caixas de som emitem um diálogo caótico em francês. Blá, blá, blá. Depois entra uma fala rápida e também confusa em português de Portugal. Impossível entender. Volta o francês. Não há legendas. Toca um trecho de David Bowe. “We can be Heroes/ Just for one day”. Mais francês. Às vezes, frases soltas em português.

Passam-se longos 20 minutos. Uma dezena de pessoas levanta e vai embora. Aos poucos, os movimentos bruscos nas cadeiras e as conversas paralelas dão lugar a aplausos eufóricos. Todos aplaudem, ovacionam. “Dança, caixa de som!!”, alguém grita. “Bravo, bravíssimo!!”, festejam. Houvesse tomates nas bolsas de lantejoulas, com certeza teriam atingido as onipotentes caixas de som. Diante da balbúrdia, mantinham-se imóveis. E falavam francês.

Quando por fim as luzes se apagaram e em seguida dois corpos apareceram no palco, novos aplausos eufóricos tomaram conta do teatro. Por mais 20 minutos, um casal de dançarinos fez movimentos lentos entrecortados pelos mesmos trechos da musica de Bowe. Era bonito e sensível. Interessante. E acabou.

Os aplausos finais partiram de gente que preferiu ficar sentada na poltrona. Aos poucos, vendo a respiração ofegante dos franceses, parte se levantou. Na saída do teatro, a sensação de ter participado – como platéia - de um evento da Semana de Arte Moderna de 22.

Eu, que já tinha comprado ingressos para o encerramento do FID no domingo, acabei desistindo. Troquei o solo do Quênia por cerveja e mandioca frita.