segunda-feira, 26 de maio de 2008

Onde estão os gays?







Na Folha de hoje, a foto da avenida Paulista lotada com os simpatizantes da causa GLBT me fez pensar na falta de gays nas ruas de Belo Horizonte. Claro que a Parada em Sampa é também um dia de “A Banda” no coração da cidade – o preconceito volta a tomar seu lugar na segundona gorda. No entanto, qualquer paulistano que passa pelo centro da cidade – a pé ou de ônibus e Metrô - convive diariamente com casais gays de mãos dadas, que vez ou outra trocam beijos apaixonados.

Paulista, Frei Caneca, Augusta, Espaço Unibanco. Em bares, cinema, shoppings ou danceterias, os gays freqüentam a mesma tribo dos modernos e descolados. Já em BH, eles estão camuflados. Casais de meninas? Nem pensar. Minha conclusão, assumidamente precipitada, é que mesmo os “modernos” da sociedade mineira não costumam incluir os homossexuais no seu circulo de amigos.

A homofobia que dificulta a militância gay na cidade é culpa da tradicional família mineira, disse Danilo Oliveira, do Clube Rainbow de Serviços, para o jornal O Tempo, em 2001, nesta entrevista. Para quem olha de fora, a afirmação faz sentido. O jeito vai ser engrossar o caldo da próxima Marcha do Orgulho Gay de Belo Horizonte.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Tim, tim!

A notícia ficou velha, mas não poderia passar em branco. O grupo de coco Ouricuri, dos amigos de Beagá, recebeu duas belas indicações para o prêmio Tim deste ano! Vale mostrar quem são os concorrentes:

CATEGORIA REGIONAL - MELHOR DISCO
- Qual o assunto que mais lhe interessa... (Elba Ramalho)
- Os Cocos (Grupo de Coco Ouricuri)
- Toda vez que dou um passo o Mundo Sai do Lugar por Siba (Siba e a Fuloresta)

CATEGORIA REGIONAL - MELHOR GRUPO
- Grupo de Coco Ouricuri
- Meninas de Sinhá
- Trio Virgulino

A premiação será dia 28 de maio, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi interessante acompanhar como a divulgação dos finalistas serviu de mote para um olhar mais atento da imprensa mineira. O frisson fez com que a Globo convidasse o grupo para um programa inteiro dedicado a eles. O primeiro bloco está no site do Globo Horizonte, neste link. [Momento tiete: o Eduardo participa da primeira música tocando violão!]

Aqui, o primeiro registro deste Tutu sobre o Coco. E ainda vale entrar no Myspace para ouvir com clareza o som dos tamancos.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Bienal do Livro nº Zero

Acesso difícil, longo trecho de caminhada a pé, sol na cabeça, nenhum sinal de verde. Trocando a areia pelo concreto, temos o cenário típico dos mega galpões construídos para sediar as “exposições” que movimentam muita grana nas capitais brasileiras. Livros - definitivamente - não combinam com tamanha aridez. Mas, enfim, o Expominas foi escolhido para abrigar a primeira Bienal do Livro de Minas.

Mesmo sem camelo, encarei o mar de concreto até o oásis (e labirinto) de livros. Gostei de testemunhar a edição de estréia da Bienal, que deixou de ser uma feira realizada na Serraria Souza Pinto para ganhar um “status” mais oficial no calendário da cidade. Estive por lá no segundo dia do evento e a coisa ainda estava devagar. Pouco público, poucos títulos, poucos descontos.

Consegui acompanhar um bate-papo com o titulo A cyberlinguagem se tornará uma língua falada?. Com todo respeito aos convidados – Pasquale Cipro Neto, Kiko Ferreira e Juliana Samapaio, as opiniões eram muito parecidas entre eles. Todos se mostraram descrentes com o potencial anárquico da rede. Ouvi saudosismos como “antigamente um editor avaliava o seu texto e só era publicado algo de qualidade. Hoje qualquer adolescente pode jogar uma mentira na rede.” Oras, mas não é o máximo pensar que este mesmo adolescente agora pode soltar a voz no mundo? Falar com os amigos, criar a própria linguagem, brincar/ mentir à vontade?

Outras impressões da recém nascida Bienal de Minas:

- Se você procura por livros em baciada, com preço de banana, é bom gostar de auto-ajuda ou leitura religiosa. São os carro-chefe dos stands, com grandes posters de Jesus e vídeos (em alto e bom som) sobre o Salmo da Montanha.

- Pela quantidade de propaganda e mulheres bonitas vestidas com roupas de astronauta, o patrocínio empresarial parece sustentar a Bienal. Todas as “arenas” de debate são também um outdoor gigante. Discuta cyberlinguagem, matricule-se na Universidade Fumec.

- Os vendedores de assinaturas de revistas são uma nova modalidade de ciganas urbanas. Insistem chamando quem passa com um “psiiiiiu, psiiiiiu” agressivo, derivando para um tom desesperador com “moça, moça, vem cá, vem cá!”. Mesmo quem ouve a proposta de grego e leva um constrangedor chaveiro da revista Veja de brinde não escapa do assédio na próxima volta pelo stand. Um saco.

Ontem soube que os maiores descontos nos livros de editoras comerciais está no stand da Submarino. Você entra, acessa o computador, identifica a imagem minúscula da capa e clica com o mouse. O frete sai de graça. Mas cá entre nós: não é bizarro desprender tanta energia para chegar ao Expominas e comprar um livro sem folheá-lo, checar a edição, o tamanho da letra, a cor da página? Pelo visto, a economia acaba servindo de prêmio de consolação. Perdi a boiada!

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Ensaio sobre o medo

Quase nove meses de BH e algumas coisas custam a passar despercebidas. Entre meus estranhamentos mais constantes, estão as cercas elétricas, os alarmes ativados com códigos e as placas com caveira que dizem bom dia para a visita que chega à porta. Todos os dias, o alarme me dá a tolerância de três minutos do portão da rua até o portão interno do prédio. É pior que gincana de TV. Demorou, dançou.

Não é preciso morar em bairro de classe alta para constatar a paranóia que toma conta da cidade e faz a festa das empresas de segurança. As fotos - todas do meu bairro - podem provar a loucura das prisões voluntárias que marcam nossos anos 2000.











































terça-feira, 6 de maio de 2008

Rápidas

Trabalho no feriado e uma visita especial no fim de semana renderam algumas reflexões:

- Torcer por um time é tão obrigatório quanto ter carteira de identidade, especialmente em época de decisão de campeonato. Dias atrás, eu explicava que era de São Paulo e não torcia para ninguém, mas meus interlocutores não mostravam disposição para a resposta. Resolvi adotar a persona atleticana e os ruídos na comunicação diminuíram. O taxista, arrasado com a derrota no domingo, ficou feliz em transportar uma camarada de time e deu um desconto de dez centavos na corrida. Despediu-se de mim com um sonoro “amanhã é outro dia!”.

- A excursão feita para Ouro Preto com a CVC em 1996 (vixi, será que é isso mesmo?) não valeu quase nada em termos de desenvolvimento intelectual. À época, tive a famosa overdose de Aleijadinho e visitei todas as igrejas possíveis. De concreto, no entanto, restou apenas um relógio de sol feito em pedra sabão. No bate e volta que fizemos neste sábado, visitamos somente a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, construída em 1733. Mas a amostra foi suficiente para superar todo o meu conhecimento prévio de barroco e rococó made in Brazil. Pedi uma referência de um guia bacana e valeu a pena. O carismático Taquinho não tinha simplesmente “decorado” nenhuma ladainha. Pelo contrário: falava com paixão dos detalhes das capelas, dos anjos, das pinturas. Tirou dúvidas cabeludas no âmbito arquitetônico, histórico e químico - explicando o processo de colagem da folha de ouro na madeira. Finalmente, posso dizer que não é justo desqualificar o trabalho desses guias.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Galos & Raposas

Não tenho a intenção de comentar meu dia a dia de trabalho neste blog, mas a estréia na cobertura de futebol foi tão marcante que não poderia passar batida. De última hora, soube que eu seria mandada para acompanhar um protesto de atleticanos na sede do clube, revoltados com o cinco a zero para o Cruzeiro na primeira partida da final. Mas essas eram as únicas informações do meu repertório futebolístico.

E lá vou eu para a sede do clube, levando um jornal do dia para saber detalhes como o nome do técnico e do presidente do Atlético. Achei divertido descobrir que o Cruzeiro – o time azul – também tem uma variante no reino animal. São as raposas.

Já compreender o grau de ódio dos torcedores do galo em frente à sede foi um exercício mais complicado. “A minha mulher tá sofrendo muito, ela não saiu na rua com vergonha do time”, me contou um deles. O clima estava bem pesado. Os olhos, raivosos. Por pouco não tive um ataque Amélie Poulain pregando a paz entre os povos. Ou melhor, entre os times.

Uma hora depois, já sabia das falhas da escalação do Geninho e das falsas promessas de Ziza para a contratação de um time centenário. Foi uma pena ter saído de lá antes do tiro de borracha da polícia para conter o tumulto que se armou na saída do Ziza. Perdi a noticia.

No dia seguinte, a cidade amanheceu nitidamente dividida entre raposas sorridentes e galos escaldados. Pela primeira vez, a seção de Esportes do jornal não foi ignorada. E minhas duas grandes amigas Lica e Mari – jornalistas esportivas desde sempre - ganharam ainda mais pontos na escala da minha admiração.

domingo, 27 de abril de 2008

Virada à mineira

Estive nas duas edições anteriores da Virada Cultural em São Paulo. Na primeira, comecei a noite numa roda de fandango de Cananéia (litoral de SP) com amigos do grupo Jovens Fandangueiros do Itacuruçá, no Mercado Municipal. Eles não puderam levar microfones nem tiveram espaço reservado para tocar. De lá, encarei uma fila gigantesca no Teatro Municipal, mesmo sem saber qual seria a atração. Consegui entrar para a performance ultra moderna de um grupo de teatro e por fim, passada a euforia inicial, abandonei as poltronas aveludadas. Se por um lado gostei de ver o pessoal da periferia aproveitando o direito de entrar ali, tive raiva da falta de critério na escolha do espetáculo. Era muito ruim.

Ano passado cheguei atrasada para uma apresentação de rua do Ballet da Cidade, que dançava ao som de músicas do Chico Buarque. Quis me aproveitar desta eterna condição de baixinha para furar a multidão, mas quase levei porrada. O jeito foi me contentar com um ombro dançante e outra perna voadora.

Ainda peguei O Teatro Mágico – que finalmente passei a enxergar como um dos principais fenômenos de sucesso entre adolescentes despontado do circuito alternativo. Mas depois de muito massacre para tentar um espaço em frente ao palco, acabei assistindo ao show pelo telão. A menina do meu lado, com o nariz de palhaço que identifica os fãs do grupo, subiu no ombro do namorado para ter uma visão mais apurada... do telão.

Toda essa introdução para ponderar que o melhor da Virada Cultural é viver a cidade e desfrutar do espaço público. E que, por coincidência, nesta noite de sábado foi possível sentir esse clima de noite em festa aqui em BH. Até o próximo domingo, o parque Municipal iluminado de verde recebe shows noturnos de bandas que já são sucesso no circuito independente em Minas e outros estados. O projeto é o Conexão Vivo (antigo Telemig Celular). Foi assim que conheci um som estilo Orquestra Imperial feito por doidos bacanas de Brasília chamados Móveis Coloniais de Acaju. (!!)

A desvantagem em relação à Virada paulista é que os ingressos não são gratuitos. Custam de 5 a 10 reais. Ao menos é possível garantir que a visão do show será ao vivo...

Língua

Em Minas, pronomes são desnecessários e enfadonhos. Não se diz “eu me formei no ano passado” ou “ela ainda não se arrumou para sair”, mas sim “formei ano passado” e “não arrumô”. Nessa lógica de linguagem, gosto de usar o “Anima?”. É um convite para outra pessoa: “Quero ir ao teatro esta noite. Você se anima a ir junto?”.

E sempre há uma única palavra local para descrever situações complicadas. “Garrei” é minha preferida. Na primeira pessoa, o verbo “garrar” quer dizer “tive um problema e não vou sair do trabalho na hora que combinamos, pode esquecer de me esperar, a coisa aqui tá preta”. Há também a variação para quem “garrou” no trânsito e não vai chegar em casa a tempo do jantar. [Sim, aqui o trânsito já me provoca deja vù de São Paulo em alguns horários.]

Na verdade, ainda patino no nível intermediário de mineirês. Acabo de descobrir, via meu ombusdman Eduardo, que “Tô garrado” como resposta a um convite é confirmação de presença. Exemplo:

- Véi*, cê vai no churrasco lá amanhã, véi?
- Nó, véi, tô garrado!

*Velho

Já vi que preciso tirar o diploma de nível avançado antes das próximas análises semânticas...

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Abaixo a coxinha!

Ao final da apresentação de lançamento do DVD do Maracatu Lua Nova no teatro Francisco Nunes, o público de 600 pessoas sentadas em cadeiras mais as 100 sentadas no chão ganharam feijão tropeiro e um gole de cachaça mineira. As duas empresas que forneceram o “coquetel” gratuitamente atenderam com classe a voracidade do público, tomado pelo instinto da fome.

Meia hora depois de servida a comida, a menina do bairro Aparecida já brincava de fazer castelinho com o que sobrou do feijão. Eu mesma me senti à vontade para levar uma quentinha para casa. “Bafão” assumido.

O cardápio, obviamente, não deveria ser o lide da noite de terça-feira. O DVD que conta a história do grupo formado em 2002 em Belo Horizonte é muito bem feito, com depoimentos dos integrantes no intervalo de apresentações pela cidade e muita música. E mesmo espremidos no palco, eles ainda se apresentaram ao vivo, com as catirinas e todos os instrumentos típicos do ritmo herdado de Pernambuco: alfaia, gonguê, tarol, caixa e ganzá.

Mas ao imaginar toda aquela multidão comendo coxinhas e canapés, saquei o quanto seria forçado. E faço questão de elogiar os organizadores por mais este cuidado com a festa. Foi a cereja no bolo. Ou o ovo no feijão.

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Impossível não se emocionar com as meninas e os meninos novinhos que fazem parte do Maracatu. Mesmo antes de aprender a pegar na baqueta, alguns já carregam o seu tamborzinho. Outras viram princesinhas africanas com a saia rodada e o lenço na cabeça. Aqui, a foto de um desses protagonistas, tirada numa festa de Congado em Raposos, perto de BH, em 2005. Fico devendo as catirinas mirins.


terça-feira, 22 de abril de 2008

Galpão: primeiro encantamento














Era o último dia de uma curtíssima temporada de repescagem da peça “Pequenos Milagres”. Já sabíamos que os ingressos estavam esgotados, mas nos firmamos na possibilidade de que os 30 cortejados com cortesias não aparecessem no teatro. Encaramos a fila com resignação e alguma cara feia para o amigo do amigo do amigo que entrava na nossa frente.

Mas era noite de milagres. E conseguimos entrar. Em seguida, fomos tomados pelo alumbramento de uma montagem do grupo Galpão. As quatro histórias da peça foram escolhidas entre 600 recebidas durante a campanha Conte sua História, quando a população de Minas foi convidada a enviar cartas e e-mails – anônimos ou não – descrevendo uma vivência pessoal com alguma pontinha de verdade.

Cabeça de cachorro, que amarra as outras três histórias, me transportou para o caótico centro de São Paulo com apenas seis atores em cena. Os poucos elementos do cenário foram suficientes para restituir a essência da praça da Sé – ou praça “do Zé”, como pensava o menino protagonista. Aos 11 anos, tomou um ônibus sozinho partindo do interior com uma curiosa incumbência do pai: levar a cabeça do cachorro que mordeu o irmão mais novo para a vigilância sanitária de São Paulo. Perdido naquela confusão de pregadores religiosos, homens de negócio, vendedores e assaltantes, ele descobre que pode ser dono do próprio caminho.

Por fim, a peça é um presente ao público pelos 25 anos do Galpão. De forma singela, consegue lembrar que o cotidiano pesado de gente pobre deste país também está cercado de estrelas e sonhos que se realizam.

Um alento para tantas camas quadradas e casais redondos, espíritos penados e virgens de 40, como comentei neste post.