
Sempre tive curiosidade com esta opção da Folha de S. Paulo pelas tais “sabatinas” com políticos e personalidades. Mas nesta terça-feira, finalmente, entendi o quanto este formato é ousado em relação a camisa de força dos debates convencionais. Fiz parte da platéia que se inscreveu para participar do evento promovido pelo jornal
em Belo Horizonte com a presença de Márcio Lacerda e Leonardo Quintão no teatro do colégio Dom Silvério. Em miúdos, “sabatina” significou coragem para fazer as perguntas que precisam ser feitas. Sem papas na língua e sem a política da boa vizinhança tão tradicional por parte da imprensa mineira. O bicho pegou.
Não é qualquer dia que se houve um jornalista perguntar, logo de cara, se o próprio Quintão não considera que o vídeo da convenção do PMDB em Ipatinga revele o despreparo do candidato a prefeitura de BH. Houve também um bom questionamento quanto ao emprego dos irmãos de Quintão na Câmara dos Vereadores – seguida de uma resposta desastrada: “Eu não sabia que nepotismo era crime. Quando li nos jornais, demiti os dois, mas eles eram bons de serviço”.
Cinismo, despreparo, desconhecimento de história, picaretagem. Sem a máscara da TV, “Leo” mudou até o sotaque caipira. Alguém na platéia enviou uma pergunta – “Por que você conversa com um sotaque caipira apenas na TV?”. “Porque na TV eu estou mais relaxado, tranqüilo, e aqui é uma pressão grande, vocês não sabem a adrenalina”.
Lacerda não foi poupado. Quando questionado sobre o envolvimento nas operações do Mensalão, ele mostrou desconhecimento da etiqueta política que prega o “desconversar” para dar detalhes de como teve contato com Marcos Valério ao intermediar um acerto de contas entre a campanha de Ciro Gomes e o tesoureiro do PT na época, Delúbio Soares. Numa pergunta embaraçosa sobre o quanto sua candidatura foi imposta à revelia do PT nacional, Márcio se justificou dizendo que a escolha de Aécio não teria sido irresponsável. Em seguida, reconheceu erros graves da campanha no primeiro turno – como o grande espaço dado aos padrinhos em detrimento da apresentação de propostas pelo próprio Lacerda.
Não é fácil ter frieza para pensar a longo prazo ou escolher o “menos pior”. Sai da sabatina arrepiada. A situação está intragável.
[A cobertura pela própria Folha não trouxe a tona os grandes embaraços do evento. Mesmo assim, eis a notícia.]