terça-feira, 26 de outubro de 2010

Humor e eleição

Muito trabalho e pouca festa, os males do Brasil são.
Em época de estresse pré-eleição, recebi uma das melhores piadas com Dilma e Serra. Compartilho!

Serra e Dilma respondem: “Por que a galinha atravessou a rua?”


Dilma Rousseff: “No que se refere ao fato de a galinha ter cruzado a rua, eu considero que este é mais um ganho do governo do presidente Lula. Eu considero que foi apenas depois que o presidente Lula me pediu para coordenar o PAC das Ruas é que as galinhas no que se refere ao cruzamento das ruas tiveram a oportunidade de poder cruzar as ruas, coisa que, aliás, só as galinhas com maior poder aquisitivo podiam no governo FHC, no qual o meu adversário foi ministro do Planejamento e da Saúde”.

José Serra: “Olha, este é mais um trolóló da campanha petista. Veja bem, as galinhas cruzam as ruas no Brasil, há anos. Eu mesmo coordenei a emenda na Constituição que permite o direito de ir e vir das galinhas. Eles ficam falando que foram eles que inventaram esse cruzamento de ruas, mas já no governo Montoro, quando eu era secretário do Planejamento, as galinhas cruzaram as ruas com maior segurança. Eu, por exemplo, criei o programa Galinha Paulistana, que permitiu que milhares de galinhas pudessem cruzar as ruas e, agora no meu governo, vou criar o “Galinha Brasileira”, em que toda galinha terá direito de cruzar as ruas quantas vezes quiser “.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Minas e a Política....

Com todos os mil discursos, boatos, blá blá furado, tenho observado como os mineiros são conscientes da relevância política do Estado na definição das eleições. Já ouvi gente dizendo que as políticas que funcionam em São Paulo ou no Nordeste não funcionariam aqui e já vi quem ainda não se conforma pela não escolha de Aécio como presidenciável do PSDB nessas eleições.... Agora acabei de descobrir um vídeo com marchinha do compositor mineiro Flávio Henrique que mostra outra faceta desse orgulho regional - desta vez, de olho em votos para Dilma, uma mineira de Belo Horizonte. Desconsiderando o mau gosto na escolha de algumas fotos, vale assistir!!

domingo, 19 de setembro de 2010

Jubileu Congonhas

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho
(...)
Os romeiros pedem com os olhos
pedem com a boca, pedem com as mãos
Jesus, já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade

(Romaria, de Carlos Drummond de Andrade)

Confesso ter travado quando precisei sentar para escrever o texto da matéria sobre o Jubileu de Bom Jesus de Matosinhos - festa religiosa realizada na cidade histórica de Congonhas há mais de 200 anos. A culpa é do poeta mineiro, autor dos versos acima. Como competir com uma reportagem tão profunda e sensível como o poema Romaria? Oras – só mesmo com a compaixão da poesia pode ser possível descrever um evento que é inteiro permeado pela subjetividade da fé de gente muito simples, que chega de todos os cantos do estado em agradecimento ao Bom Jesus.

Mas, vamos lá, minha missão não era tão impossível assim. Recuperada da emoção de ter testemunhado a mesma festa relatada por Drummond na década de 30, tomei coragem para descrever o que pude presenciar em algumas horas de muito sol e tumulto. Sim, na verdade aquela era a versão moderna da celebração, com romeiros que chegam de ônibus de excursão com ar condicionado e fazem pausa nas rezas para compras de roupas e produtos chineses em feira livre lotada de ofertas.

Apesar do tempo presente, nada me pareceu mais antigo do que os chamados ex-votos: quadros, objetos, pedaços de cabelo, fotos e bilhetes oferendados por fiéis em agradecimento a uma prece alcançada. Para isso, a basílica de Congonhas abriga a Sala dos Milagres. Ali, uma exposição de ex-votos do século 18 e 19 já consagrados como obras de arte se misturam a objetos recentes, como os trazidos naquele domingo em que estive por lá. A imagem é emocionalmente muito forte – um dos bilhetes manuscritos pedia ao Bom Jesus que “meus pais encontrem harmonia e parem de brigar”. Outro quadrinho, com texo impresso de computador e foto colorida de um bebê risonho, relatava a alegria de uma mãe que passou anos e anos tentando engravidar.

Seria capaz de passar horas estudando os tais ex-votos. Mas eles não cabiam no meu tempo e tampouco na matéria. O VT de 3 minutos e pouco feito para a TV local teve que passar por uma drástica edição para caber no limite imposto pela TV Brasil. Ainda assim, segue aqui o sobrou de um cansativo e interessantissimo dia de trabalho...

http://tvbrasil.ebc.com.br/reporterbrasil/video/9639/

[Imagens: Marcelo Abreu]

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Este blog está vivo!

Amigos e seguidores – poucos, mas fiéis: não desistam do Tutu. Esta que vos fala está a mil por hora, mas pretende continuar registrando algumas histórias por aqui. Para um rápido comentário: hoje o Mercado Central de BH comemorou 81 anos e estive lá fazendo reportagem. Adorei reencontrar colegas da Cultura Racional – Universo em desencanto, integrantes da banda responsável pela música da festa. [Lembram do post relatando a minha inusitada descoberta sobre a existência do grupo?? Tá aqui.]

Ah, e foi a primeira vez que encarei um pedaço de bolo gigante de festa popular. O bolo tinha 450 kilos e foi servido para duas mil e quinhentas pessoas! Docinho recheado de frutas e massa tipo pulmman: nenhum espetáculo gourmet, mas tragável!

Até breve!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

De volta às coletivas


“Coletiva”, para quem não é jornalista, refere-se a uma entrevista convocada por uma personalidade ou “autoridade”, normalmente às dez horas da manhã, para que a imprensa seja informada de algo supostamente importante para a sociedade. Afastada do jornalismo diário por dois anos, tive a chance de relembrar tais momentos de selvageria em duas coletivas realizadas na mesma manhã desta segunda-feira. Loucura.

*

Na primeira pauta, tranquila, acompanhamos o início do curso de treinamento aos mesários das próximas eleições. Eis que chega o juiz da zona eleitoral, que nos daria a esperada “sonora” – sem a qual não há autorização para a retirada do recinto. Repórteres de todas as espécies e veículos se entreolham, esperando o momento de “avançar”. Mas o curso está em andamento, não podemos interromper. E a presa continua na mira. Mal a moça desliga o microfone, o juiz já está acossado no bololô de microfones, luzes, gravadores, braços esticados. Primeira lesão do dia – nunca fiz musculação para sustentar o microfone por tanto tempo. Entro no sovaco de um, faço ginástica com a cabeça, ouço pedidos de “sai da frente, pessoal!!”. E reparo como as perguntas acabam saindo meio sem nexo, repetitivas, chatas. No entanto, enquanto há perguntas, paira o imaginário de que não podemos sair dali – vai que algo bombástico seja declarado..... claro que não será!!

*

“Vai ter coletiva na polícia agora sobre o caso Maioline, corre pra lá”. Júlia não sabe quem é, o que é Maioline. Implora por alguma pista junto ao apurador. Chega atrasada, posiciona microfone na mesa dos delegados e se resigna a ouvir sobre o que nada sabe. Anota palavras desconexas do policial, tenta extrair alguma lógica, mas não resiste a perguntar para uma colega com cara de competentíssima (e de repórter de jornal impresso, por não estar maquiada ou de “terninho”). “Qual a novidade da coletiva??”. Ufa, descubro então que Thales Maioline, principal suspeito de uma fraude milionária que enganava investidores em Minas, agora teve a prisão decretada e se torna oficialmente foragido da justiça.

A repórter da Globo quer saber como serão as apreensões na falsa empresa do golpista e se levanta primeiro da “plateia” de jornalistas. Todos se levantam – é dada a deixa para a “sonora”. Avanços gerais, brigas, desespero, perguntas ruins. Peixe fora d´água, quebro com minha promessa de ficar calada e já me vejo perguntando algo que penso ser importante durante as investigações da polícia. Nessa hora, é preciso gritar, falar alto e com tom de autoridade – a única lei de comum acordo para que se consiga “a vez” na hora de perguntar. Depois, é preciso paciência para perguntas e respostas picadas, para o insistência do cara da rádio, para a viagem da moça da televisão, etc...

*

A coletiva virou a primeira matéria do jornal do meio dia. E a fita chegou na redação às 11h45. Adrenalina a mil, acabou entrando. E eu não sei como tanta gente sobrevive ao infarto antes dos 40.

*

Este post foi inspirado em leitura de uma série de três crônicas escritas por Perseu Abramo na década de 60 e reeditadas em "Um trabalhador da Notícia" (ed. Fundação Perseu Abramo). Com vasta experiência e competência como repórter, Perseu descreve os tipos mais comuns e interessantes das “coletivas” de forma impagável – entre eles o Sujeito da Televisão, o locutor de rádio, o Fotógrafo Apressado, o Foca e o Repórter Subversivo. Alguns trechos:

“Repórteres os há de toda espécie e variedade. Há o Repórter Subversivo que chega e toma o melhor lugar e que usa colarinho aberto e corpo ereto. Não faz perguntas: oferece opções. “O senhor é a favor da paz ou é u imperialista sanguinário?” “O senhor é contra a bomba atômica ou é um capitalista reacionário?” “O senhor bebe pinga mesmo ou é vendido à Wall Street?” O Repórter Subversivo não deixa passar nada, não perdoa ninguém: economista ou trapezista, tenista ou musicista, o entrevistado tem de ser contra a bomba atômica ou um burguês fascista”.

“Mas o mais interessante dos repórteres é o Repórter Original. A primeira coisa que se deve dizer do Repórter Original é que ele constitui a maioria entre os repórteres: todos se consideram originais”.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A cidade é o palco!



De cara, o estranhamento é dos grandes... Um tapete vermelho em plena praça Sete? Palco montado no cruzamento mais agitado da Savassi?? Pois é... Logo soube se tratar de uma instalação do Festival Internacional de Teatro, o FIT ameçado de extinção que, pelo bem da nação e da classe artística de Minas, acabou saindo.... O trabalho é de Paulo Pederneiras, também cenógrafo do Grupo Corpo. Ainda não vi os espetáculos que devem ocorrer nestes espaços "vermelhos", mas já aplaudo a iniciativa capaz de quebrar a monotonia cinza da cidade...

Ontem de noitão estive na abertura do festival, com o trabalho K@osmos, da Espanha. Fui atraída pela mega-estrutura montada na praça da Estação, com show ao vivo estilo Bjiork e um guindaste gigante que serviu de sustentação para acrobacias feitas no ar por um grupo de artistas. Foi bonito, preciso admitir, mas passou longe de um trabalho que inspirasse o teatro. Muito deslumbre, pouco encantamento.... Os artistas convenceram como profissionais acrobatas, mas não como atores de expressão corporal ou emotiva... Mas, deixando de ser chata, claro que valeu a pena.

Devo conseguir acompanhar outras atrações internacionais programadas para o evento, mas temo que o show de pirotecnia e megalomania tire o espaço do teatro que comunica, emociona, convence. Vamos ver... (e torcer pelo contrário!)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sotaques 3

Às vésperas de completar três anos nas Gerais, pensei que já era tempo de escrever mais um post sobre o mineirês. Afinal, por esta longa convivência com o “idioma”, já devo ter chances conseguir meu diploma nível intermediário... Enquanto “matutava” o texto, me chega este email enviado por Lud. Mesmo se tratando de uma grande cantada às mulheres mineiras, gostei das análises “semânticas” feitas pelo forasteiro, o autor anônimo do texto.

Pelas boas sacadas que seguem, replico aqui mais uma homenagem a este falar tão característico que, confesso, já vem sendo adotado em partes por uma ex-paulistana...

O sotaque das mineiras

(Autor anônimo)

(...)

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem, sabe-se lá
por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem:
pode parar, dizem:
"pó parar").

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas,
supõem, precipitada e
levianamente, que os mineiros vivem -
lingüisticamente falando - apenas
de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é
competente em tal
ou qual atividade.
Fala que ele é bom de serviço.

Pouco importa que seja um juiz de direito,
um jogador de futebol ou um
ator de filme pornô.
Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de
serviço.
Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas
há de perguntar pra
outra: "cê tá boa?"
Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma
mineira se ela tá boa é
desnecessário.

Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:
Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais
amplos significados.
Quer dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido.
Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir.
Aqui ninguém consegue
nada. Você não dá conta.
Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo,
você liga e diz:
Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não,sô.
Esse "aqui" é outro que só tem aqui.
É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública,
de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar
e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, "olá,
me escutem, por favor".
É a última instância antes de jogar um pão de queijo
na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por".
Dizem, sabe-se lá por que, "pêxonado com".
Soa engraçado aos ouvidos forasteiros.
Ouve-se a toda hora: "Ah, eu pêxonei com ele...".
Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você,
um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas "com" alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras,
todo mundo sabe. É um tal de
"bonitim", "fechadim", e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo:
"E aí, vamos?".
Não caia na besteira de esperar um "vamos"
completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela,
mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.
No supermercado, não faz muitas compras, ele compra
"um tanto de côsa".
O supermercado não estará lotado, ele terá
"um tanto de gente".
Se a fila do caixa não anda, é porque está
"agarrando" [aliás, "garrando"] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir
um mendigo e ficar com pena,
suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.

Não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro
"caça confusão".
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para
se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual,
ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: "Ô, é sem noção".
Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora,
idéia do "tanto de
bom" que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo,
porque sem ele não dá para dar
noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!!
Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo.
Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer
"ce acha que eu faço isso"? com algumas
toneladas de ironia...

Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "Ô dó dôcê".
Entendeu? Não? Deixa para lá.
É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."?
Completo ele fica:- Ah, nem...
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não
fará o que você propôs de jeito nenhum.
Mas de jeito nenhum.

Você diz: "Meu amor, cê anima de comer
um tropeiro no Mineirão?".
Resposta: "Nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.

Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?".
A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"?
Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.

É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Falando em "ei...".
As mineiras falam assim, usando, curiosamente,
o "ei" no lugar do "oi".
Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!",
com muitos pontos de
exclamação, a depender da saudade...
Tem tantos outros...

O plural, então, é um problema. Um lindo problema,
mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor,
os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja
com a razão.
Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas..
Ques côsa? - ela retrucará.
O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade",
no lugar de "pela metade".
E se você acusar injustamente uma mineira, ela,
chorosa, confidenciará:
Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus
mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou:
"prôcupa não, bobo!".
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas
conjugações mineiras, nem se
espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um:
"não se preocupe", ou algo assim.

A fórmula mineira é sintética. E diz tudo.
Até o "tchau" em Minas é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês".
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então...


[Leia aqui outros posts sobre o mineirês em Língua e Sotaques.]

terça-feira, 20 de julho de 2010

Criança na cidade



Foram sete dias com um pequeno de cinco anos como visita de honra em BH. Garoto esperto, chegou em casa falando de São Paulo como “lá no Brasil...”... Pudera: a primeira pessoa com quem o Cauã teve contato em Minas foi Dona Virgínia, a faxineira de casa: nascida no interior do estado, na região de Teófilo Otoni, ela tem a fala de quem mal frequentou a escola. Para dificultar ainda mais a compreensão do pequeno paulistano, a senhora tem problemas auditivos e conversa em um tom de voz bem mais alto do que a média da população.

Meu sobrinho acompanhou bem os pais jovens em bares, cervejas e torresmos pela cidade, mas também imprimiu um ritmo bem especial às programações diurnas. A rápida caminhada da praça da Liberdade à Savassi, por exemplo, virou uma maratona de caça às pedras no chão – colecionadas como verdadeiras relíquias mineirais. O aviãozinho de papel foi lançado ao ar mais de 50 vezes, obrigando paradas constantes para novas aterrizagens na rua suja.

No mais, percebi o quanto a presença de uma criança pode alterar nossa visão do cotidiano. Os pequenos servem como desculpa para programas que raramente faríamos sem elas. Meu irmão curtiu cada minuto do domingão no parque Municipal, entre brinquedos, burrinhos e patos. Na agenda, ainda entraram os bonecos incríveis do Museu Giramundo e os quatis ensandecidos do parque das Mangabeiras. Nada mal – sol gostoso, vistas espetaculares, alguma pipoca, muita risada.

Na próxima visita, talvez seja hora de escrever o guia BH para Crianças em parceria com Cauã... [Já sinto falta das fatias de doce de mocotó encontradas no tapete...]

domingo, 4 de julho de 2010

Grão Mogol



Nem Kubai Klan ou Ítalo Calvino chegaram a inventar esta cidade. Mas poderiam. Mesmo sem nome de mulher, Grão Mogol, no norte de Minas, chama a atenção do viajante por suas igrejas feitas de pedra e rio cor chá-mate. As pequenas casas coloridas da rua central, feitas de adobe, guardam histórias e cheiros de séculos atrás, quando a vila entrou no alvo da coroa portuguesa pela descoberta de diamantes na região. Espremidas, as casinhas ainda servem como vendinha para biscoitos e cacarecos ou para uma barbearia em plena atividade. Em clima de festa junina, se agitam bandeirinhas coloridas no céu.

*

Os anos 2010 parecem longe de alcançar a cidadezinha de 15 mil habitantes fincada entre o mar de eucaliptos na paisagem do Jequitinhonha. Mas a verdade é que me senti muito bem recebida por ali, numa parada estratégica rumo a Minas Novas e Turmalina. Uma atmosfera acolhedora que talvez se explique por uma bonita mística familiar.

*

Nos idos de 1920, meu avô João menino frequentou poucos anos de escola rural em Passos, no sudoeste de Minas. Garoto inteligente, descobriu imenso prazer no privilégio oferecido pela professora aos alunos que terminassem a lição mais cedo: poderia ir ao quadro negro estudar o mapa do estado. Encantado, ele corria com a tarefa e se entregava às viagens imaginárias que o faziam conhecer o mundo... (Minas não é o mundo, oras?..). E entre as centenas de cidades do mapa, uma delas chamava mais a atenção: Grão Mogol. Nome diferente, lugar bem distante, quase mágico. Desde então, cismou: queria fechar os olhos e aparecer por lá.

*



Oitenta anos depois, com a mesma lucidez de sempre e a excelente orientação espacial, meu avô ainda contava a história de Grão Mogol. Mas não chegou a visitá-la. A missão foi cumprida por mim, meio sem querer, três anos depois da sua morte. Não é a toa que nas ruas da cidade perdida e sonhada, os caminhos me parecessem marcados por diamantes...

sábado, 19 de junho de 2010

Mulheres da terra

Dona Maria tem 72 anos e um raro bom humor. Na zona rural de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha, mora em uma casa grande e fresquinha, com duas cozinhas: na de fora, fica o maior forno à lenha que eu já tinha visto até então. Nos recebeu com os pés no chão e as mãos sujas de barro: “estava moldando agorinha mesmo”. Artesã de mão cheia, me levou ao quartinho onde estavam os vasos grandes que acabavam de ganhar forma. Logo conheci as bonecas casamenteiras e os outros potes, bules, jarras e copinhos – decorados e pintados por ela. Impossível não admirar a inspiração para a arte nascida em meio a tanta pobreza.

Dona Maria mora com mais seis pessoas da família e virou “personagem” na reportagem que gravei por ser uma das beneficiadas com o projeto Um milhão de Cisternas, coordenado pela Articulação do Semi-Árido Brasileiro. A cisterna, que coleta a água da chuva para os períodos de seca, é a única garantia de água limpa para essas famílias. [Neste caso, não era clorada... e parece que raramente há tratamento...]

Mas a participação desta grande mulher no post do Tutu Mineiro tem outro significado. Ao longo dos dez dias e dos 2.400 quilômetros rodados no Jequitinhonha, conheci histórias de outras donas e jovens Marias que, em comum, têm paixão por sua terra. Ainda que seja pobre, ainda que seja isolada, ainda que seja esquecida por nossos governantes.

Em Irapé



Entre os poucos funcionários da monstruosa usina hidrelétrica de Irapé, que exigiu o reassentamento de 1.100 famílias, conheci Ádila, a moça da foto. Tem 40 anos e aparência de 28. Enquanto nos acompanhava na visita ao polêmico reservatório, contou que morou quase um ano em São Paulo e achou horrível. Formada em História, ela foi atrás do sonho que contamina outros moradores das pequenas cidades do Vale. Saiu de Virgem da Lapa, de 13.600 habitantes, para acompanhar os irmãos que estavam fazendo a vida na grande metrópole. Conseguiu emprego como manicure, mas se sentia mais uma no meio da multidão. “Lá ninguém te dá bom dia, não olha para a sua cara. Aqui eu gosto de ser chamada pelo nome, de sorrir para as pessoas”, comparou.

Ádila é otimista com o futuro e não se ilude mais. Não pretende mudar nem para Montes Claros, nem para Diamantina: quer continuar na sua cidadezinha, próxima da família, das raízes. Por sorte, tem seu sustento.

Volto desta viagem marcante com o mesmo sonho: que mais mulheres filhas do Vale tenham a oportunidade de construir suas histórias ali mesmo, na terra ensolarada e acolhedora deste sertão brasileiro.