quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Você não precisa de um salão de beleza


Desde o dia 1. de dezembro, a manicure da rua de baixo começou a maratona de fim de ano. Corta cutículas, lixa unhas e pés, cheira acetona e torce a coluna para servir a suas exigentes clientes de segunda a sábado. Perdeu a segundinha de teórico descanso, na prática dedicada à idas a bancos e ao médico, compras de casa e do salão, faxina, problemas pessoais. Maria é uma guerreira, gente finíssima; mulher negra beirando os 50 anos com o sonho de montar o próprio salão, adotar uma criança e voltar para São Paulo. É de lá, veio para Minas pequena. Ficou com a ilusão.

O universo dos salões de beleza é paralelo à realidade da cidade, à realidade dos homens e de mulheres mais desencanadas. Eu mesma, que nunca liguei tanto para ter unhas pintadas semanalmente com o novo hit da Colorama, acabei mergulhando mais nesses espaços desde que virei “mulher de TV”. São lugares curiosos, de variados estilos. Gosto da Maria, mas já parei em lugares como o Essencialli, no São Bento – três reais a mais no preço da manicure se traduzem em toda uma “infra” poderosa, com água e café, poltronas individuais, TV de plasma em algum programa trash e várias profissionais disponíveis e vestidas com blusinha cor de rosa. Tem outra galeria aqui perto com espaços mais genéricos, com moças meio emburradas que costumam falar mal da patroa enquanto lixam nossa unha com força.

Em comum, esses lugares são espaços para conversas fúteis regadas a leitura dinâmica de revistas como Contigo, Caras, Nova, Minha Novela. Já levei uma CartaCapital a um desses lugares e parei de ler já primeiro parágrafo sobre o caso Satiagraha. Seria o cúmulo do “pimba” – pseudo-intelectual-metida-a-besta. Afinal, bafões sobre o fim do casamento de Pato e Sthefany Brito estavam ali do lado....

Vou a salões como quem vai a uma expedição antropológica. Por mais que eu frequente o lugar, sempre serei “de fora”. Por mais que goste de me sentir arrumada, mantenho a capacidade de me assustar com meninas de 10 anos fazendo unha e escova progressiva, adolescentes que grudam megahair na cabeleira, peruas fofoqueiras, senhoras mal educadas e preconceituosas. E com o fato de que não, não quero experimentar a nova cor verde-musgo-turmalina da Colorama. "C'est la vie".

3 comentários:

Patrícia disse...

que delícia de post, Juju! Um beijo enorme.

veronika paulics disse...

"a sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão..."
fiz umas investidas etnográficas também. saí correndo. unhas? vou cuidar de ter garras. bj.

Paulodaluzmoreira disse...

Divertido, seu texto. Parabéns.