quarta-feira, 9 de julho de 2008

A confábula do fim*

A dois minutos do último segundo um homem completamente bêbado acordou de seu sono profundo numa calçada da avenida olegário maciel e descobriu que não sabia mais quem era e sequer de onde viera;

A dois minutos do último segundo um casal de jovens apaixonados pulou do alto do edifício archângelo maletta numa atitude comovente de protesto contra as intituições familiares. Seus corpos foram cobertos com jornais locais que noticiavam a extinção da previdência social;

A dois minutos do último momento todas as crianças estavam dormindo e sonharam simultaneamente com um dominó formado por toda a população que percorria as autopistas e as avenidas e becos das grandes cidades;

A dois minutos do sinistro as leoas petrificadas da praça da estação rugiram pela primeira vez após séculos de silêncio e tomados por uma fome bestial devoraram os cavalos dos policiais montados que faziam a ronda noturna naquela noite;

A dois minutos do fecho um homem visivelmente transtornado levantou-se em meio a multidão atônita e acusou todas as mães pelos últimos atentados ao pudor. Foi imediatamente imobilizado e levado a uma clínica de psicanálise;

A dois minutos do gran finale os animais do zoológico municipal foram libertados por membros de uma ONG que protestava contra o aumento abusivo das passagens dos coletivos urbanos. Nesse dia foram registradas várias demissões no DETRAN;

A dois minutos do derradeiro fracasso o ribeirão arrudas começou a correr em sentido contrário;

A dois minutos da tragédia soaram juntas dos dez mil automóveis engarrafados na região central dez mil buzinas como trombetas apocalípticas anunciando uma nova crise mundial do petróleo;

A dois minutos de da catástrofe um vírus desconhecido penetrou silenciosamente na memória de todos os computadores. Nesse instante as impressoras iniciaram a impressão de equações matemáticas desconhecidas e misteriosas. Ao final da operação os computadores desligaram-se para sempre;

A dois minutos do blecaute total todos os shopping centers viraram mercados persas;

A dois minutos da hecatombe nuclear a cidade de Ouro Preto afundou e desapareceu completamente do mapa levando consigo para as entranhas da terra todo o seu acervo arquitetônico , a população nativa, os estudante e alguns turístas desavisados. No local foi descoberta uma civilização subterrânea em um estágio de desenvolvimento inacreditável;

A dois minutos do holocausto todos os presos foram libertados e a população civil em pânico refugiou-se nos presídios de segurança máxima;

A dois minutos do resto o metrô transformou-se numa grande serpente mitológica e devorou os trilhos da estação central até a estação lagoinha. Depois cavou um túnel interminável e nunca mais foi vista por olhos humanos;

A dois minutos do eclipse o monolito da praça sete de setembro foi arrancado violentamente por um grupo de guerrilheiros urbanos que, ainda não satisfeitos com a agressão impetrada ao imaginário simbólico da cidade utilizou-se da forma fálica do pirulito para violentar com requintes de crueldade a casta igreja de são josé num ritual orgiástico de profanação dos espaços sagrados. No mesmo momento uma facção dissidente decaptava o cristo redentor fazendo sua cabeça rolar morro abaixo até ser consumida pelas águas na praia de Copacabana;

A dois minutos do último segundo índios de todas as nações indígenas invadiram o senado vestidos de casaca e cartola e comeram cinco senadores e doze deputados num ritual antropofágico de caráter político partidário;

A dois parágrafos do fim deste texto foram encontrados centenas de exemplares de um livro proibido, inédito e desconhecido do poeta Carlos Drummond de Andrade num galpão abandonado da avenida Andradas. Todos os livros foram imediatamente recolhidos e incinerados pelas autoridades competentes antes que gerassem o kaos e o pânico em todo o continente;

A dois minutos dos últimos acontecimento o escritor norte-americano Dan Propper declarou ‘a Folha de São Paulo ter sido copiado e deturpado por poetas mineiros irresponsáveis. A despeito do protexto de seus editores, fez questão de deixar claro que era totalmente favorável a este tipo de iniciativa;

A cento e vinte segundos atrás todos os relógios despertaram sincronicamente causando um atraso irreversível na estrutura temporal do universo e a humanidade finalmente acordou de seu sono profundo e milenar.

* Por Makely Ka, o operário da contra-indústria que anda construindo milhares de edifícios alternativos por aí. O autor do blog Autófago participou ativamente do novo CD da Titane e estremeceu o Stereoteca com esta poesia sonora. Começo a pirataria copiando o texto por aqui.

7 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

O Makely é foda mesmo, viu! mas juro que já estava achando que você tinha surtado. hahahahahaha. Maravilha!

Luiz Navarro disse...

muito bom!

veronika paulics disse...

esse cara é muito bom. dá vontade de nunca mais escrever nada.

.ludmila ribeiro. disse...

pirateia mais lá no www.titane.com.br
até encarte pra imprimir em cores variadas tem! besos jujulinda

.ludmila ribeiro. disse...

mais um pitaco neomineira. antes do fim (!!?) rola de percorrer o cenário dessa confábula, roteiro pra algum dos cantos mais centenários de bh. acho que cê vai gostar se cê for..
agora eu vou pros túneis da sua terra! biju

Júlia Tavares disse...

Veronika, vc não acha que o texto também pode servir de inspiração? Puxa, trate de ativar sua vontade de escrever, viu?!
Lud, belo toque o seu. A confábula pode ser um roteiro incomum para turistas com sede de realismo. Gostei!
Beijos!

makely disse...

Júlia, fale pra Veronika que se ela parar eu paro dois segundos antes!

Beijos