terça-feira, 20 de maio de 2008

Bienal do Livro nº Zero

Acesso difícil, longo trecho de caminhada a pé, sol na cabeça, nenhum sinal de verde. Trocando a areia pelo concreto, temos o cenário típico dos mega galpões construídos para sediar as “exposições” que movimentam muita grana nas capitais brasileiras. Livros - definitivamente - não combinam com tamanha aridez. Mas, enfim, o Expominas foi escolhido para abrigar a primeira Bienal do Livro de Minas.

Mesmo sem camelo, encarei o mar de concreto até o oásis (e labirinto) de livros. Gostei de testemunhar a edição de estréia da Bienal, que deixou de ser uma feira realizada na Serraria Souza Pinto para ganhar um “status” mais oficial no calendário da cidade. Estive por lá no segundo dia do evento e a coisa ainda estava devagar. Pouco público, poucos títulos, poucos descontos.

Consegui acompanhar um bate-papo com o titulo A cyberlinguagem se tornará uma língua falada?. Com todo respeito aos convidados – Pasquale Cipro Neto, Kiko Ferreira e Juliana Samapaio, as opiniões eram muito parecidas entre eles. Todos se mostraram descrentes com o potencial anárquico da rede. Ouvi saudosismos como “antigamente um editor avaliava o seu texto e só era publicado algo de qualidade. Hoje qualquer adolescente pode jogar uma mentira na rede.” Oras, mas não é o máximo pensar que este mesmo adolescente agora pode soltar a voz no mundo? Falar com os amigos, criar a própria linguagem, brincar/ mentir à vontade?

Outras impressões da recém nascida Bienal de Minas:

- Se você procura por livros em baciada, com preço de banana, é bom gostar de auto-ajuda ou leitura religiosa. São os carro-chefe dos stands, com grandes posters de Jesus e vídeos (em alto e bom som) sobre o Salmo da Montanha.

- Pela quantidade de propaganda e mulheres bonitas vestidas com roupas de astronauta, o patrocínio empresarial parece sustentar a Bienal. Todas as “arenas” de debate são também um outdoor gigante. Discuta cyberlinguagem, matricule-se na Universidade Fumec.

- Os vendedores de assinaturas de revistas são uma nova modalidade de ciganas urbanas. Insistem chamando quem passa com um “psiiiiiu, psiiiiiu” agressivo, derivando para um tom desesperador com “moça, moça, vem cá, vem cá!”. Mesmo quem ouve a proposta de grego e leva um constrangedor chaveiro da revista Veja de brinde não escapa do assédio na próxima volta pelo stand. Um saco.

Ontem soube que os maiores descontos nos livros de editoras comerciais está no stand da Submarino. Você entra, acessa o computador, identifica a imagem minúscula da capa e clica com o mouse. O frete sai de graça. Mas cá entre nós: não é bizarro desprender tanta energia para chegar ao Expominas e comprar um livro sem folheá-lo, checar a edição, o tamanho da letra, a cor da página? Pelo visto, a economia acaba servindo de prêmio de consolação. Perdi a boiada!

5 comentários:

Luiz Navarro disse...

gostei da honestidade! sem tirar nem por, a bienal é isso mesmo! difícil acesso, pouca variedade, pouco público, pouquíssimos descontos e muito investimento do governo.

e você foi cair logo no debate mais pitoresco, hein? sinceramente, essa pessoas saudosistas não conseguem perceber que: 1) a linguagem se transforma naturalemente, e o uso da web como meio de comunicação apenas intensifica, de maneira natural, este processo. 2) o conteúdo da rede é, também por natureza, muito amplo. Ao mesmo tempo em há espaço para um adolescente se expressar da maneira que quiser, também há espaço para pessoas de qualquer idade e qualquer profissão se expressarem sem precisar da aprovação de um editor. sobre o compromisso com a "verdade" e com a "qualidade" (o que é verdade e o que é qualidade?): quem garante que a informação transmitida em meios tradicionais, com autorizações de editores, é confiável???

pois então, eu cai no canto de sereia dos vendedores de assinaturas de revistas e enciclopédias. na verdade, perdi meu tempo e acabei não assinando nada. acabei levando alguns bons livros com bons descontos, mas confesso que precisei de muita paciência e muitas voltas pelos estandes para encontrá-los.

ah! e a roupa de astronauta das mulheres loiras do estande-outdoor da fumec foram feitas pela minha irmã! :P

SaintCahier disse...

eu tive uma idéia genial de um plano de negócios que dou para quem tiver saco / tempo / paciência para explorar: abrir uma livraria conveniada com um grande online seller (tipo amazon ou submarino), e ter um estoque de livros para folhear. A pessoa folheia e compra pelo site (eventualmente a empresa pode ter um pequeno estoque dos 10 mais da Veja e outras baboseiras do gênero). E o site paga uma pequena percentagem à livraria para cada venda efetuada... para funcionar tem que haver eventualmente um pequeno estímulo (tipo um programa de milhagem) para a pessoa não sair de lá, comprar em casa, e o dono da barraca ficar no prejuízo. O cliente até pode pegar um código para comprar depois em casa, mas tem que "creditar" a lojinha.

Anderson Ribeiro disse...

Adorei 'as ciganas urbanas'. hehehehe. E, putz, ir a uma bienal, com tanto sacrifício e comprar pela internet???? É lasca!!!

Júlia Tavares disse...

Luiz, estive de volta na Bienal na última quinta-feira e preciso reconhecer que o público era bastante razoável. Acho que fui um pouco ranzinza no post, mas essa tinha sido mesmo a impressão...
Concordo com seus comentários sobre a web. O lance que observo nessas discussões é um pouco recorrente: os organizadores gostam de levar para a arena do debate sobre Internet quem tem um olhar mais distante da coisa. Sinto falta de adolescentes de 15 anos como convidados, contando para todos nós algumas boas surpresas deste novo mundo.
E a roupa de astronauta é super bacana!! Mas ainda acho bizarro esse tipo de publicidade num evento como a Bienal... :-)
Beijos!

Elisandra Amâncio disse...

Bom Júlia, não tive uma impressão tão rude quanto você em relação a Bienal do Livro de Minas. Acredito que é pq você já está habituada aos grandes eventos de SP, que nem conheço ainda... Mas euzinha, simples que sou, e acompanho o Salão do Livro há 7 anos, achei um grande salto de BH sair da Serraria para a Expominas. O ambiente é muito mais agradável, sem pivete cercando na porta e tudo mais...

Estive lá por três dias... no último dia principalmente os stands estavam muito cheios (e muitas promoções... claro!) sem falar nos corredores.

Bom, mas nem tudo foi só alegria. Primeiro, acho que demorou demais sair a programação oficial do evento. Época ruim do mês, em questões de pagamento. Achei o valor muito alto para o público simples de BH e região metropolitana. De um evento que tinha custo zero no Salão do Livro passar para R$6 é muita coisa. Sem contar o ônibus, ou o estacionamento do carro R$7.

Mas ainda, sim, a Bienal deixou uma ótima impressão. Gostei mesmo! BH está precisando de coisas diferentes assim. Ainda é a primeira, há muitos erros para serem reparados...

1 BJ e 1 Qj!