segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Depois que a banda passou...








Acabou a TEIA. Foram nove dias intensos de trabalho, festa e encantamento.

A oficina de jornalismo cultural independente articulou um grupo de quatro malucas e um maluco com muita vontade de pôr a mão na massa e revolucionar o “fazer jornalístico”. Como todos os 100 participantes estavam principalmente envolvidos com a cobertura via Internet, colaborando com a Agência TEIA 2007, concluímos que era urgente produzir algo para aqueles que não têm acesso a computador. Claro que boa parte dos sonhos não foi colocada em prática. Mas conseguimos rodar um informativo diário, feito em folha A4 dobrada, com tiragem de 500 exemplares, destacando as pessoas que aqui estavam, suas histórias e perspectivas. Deu certo! A reação de quem recebeu o informativo em mãos foi ótima. No terceiro número, já nos pediam os anteriores e sugeriam mil pautas...

Publicamos desde a fala de abertura do Gilberto Gil à oficina de penteado afro, passando pelos problemas na organização do evento e pela reivindicação dos índios do Ponto de Cultura Índios On Line, que formalizaram o pedido de um Cineclube para o Ministério da Cultura. Uma loucura.

Tive momentos como ouvinte, deixando a paranóia de “cobrir” tudo o tempo inteiro. Para compartilhar com os amigos de longe, recorro ao bloquinho de anotações e faço aqui um esforço de memória para registrar os melhores momentos...

Suassuna

“Em primeiro lugar, quero pedir desculpas. A minha voz é feia, baixa e rouca. Atualmente também tenho pigarro. Quando fui secretário de Miguel Arraes ele também pigarreava. E as pessoas pensavam que eu imitava o chefe. Não tem coisa pior.”

Delicia ouvir Ariano Suassuna falar. É um show-man. Se bem que chamá-lo assim seria uma ofensa. O homem é extremamente nacionalista e fervoroso defensor da cultura brasileira. A aula dele, que inaugurou o Seminário Internacional Saberes Vivos, devia ser sobre o barroco, mas até metade da manhã ele falou do pigarro e contou por que vestia aquela combinação de roupas – camisa vermelho-escuro com calça preta. Disse que, inspirado por Gandhi, resolveu não comprar vestuário dos “colonizadores”. Arrumou uma costureira chamada Edith. Mas raramente consegue uma combinação razoável. Por isso, costuma ser barrado em eventos sociais. “Não tenho cara de autoridade. Acho isso bom!”.

Em seguida, emendou com a história do dia em que ligaram da Academia Brasileira de Letras para pegar as medidas para a tal “roupa dos imortais”. Ariano quis que Edith fosse a costureira. Não deu certo. E se disse indignado com o sotaque do carioca que fez a ligação. “Aquilo não é sotaque brasileiro. É sotaque de aeroporto”, afirmou, brincando com o “a Infraero inforrrma... vôo 123, com destino a Brasiiiiliaaaa...”.

Na parte séria da aula, criticou Oscar Niemeyer – “pode ser um ótimo arquiteto, mas não brasileiro. Ele transformou Brasília num mausoléu.” – e enalteceu Aleijadinho e Gabriel Joaquim dos Santos, o arquiteto autodidata que construiu a Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, perto de Cabo Frio (RJ). Esse “cabra macho da peste”, como classificou Suassuna, criou uma casa sem muro, aproveitando lixo doméstico, principalmente cacos de vidro e louça. Até sua morte, em 1985, fez luminárias, molduras, estantes, mosaicos.

Apaixonado por futebol, Suassuna elogiou profissionais que fazem sua atividade como “Robinho joga”. Terminou elogiando Daiane dos Santos, “outra grande pequena brasileira”. “Ela deve ter sofrido um preconceito danado. Primeiro, porque é mulher. Segundo, porque é negra. Terceiro, porque é pobre. Mas ela faz ginástica como Robinho joga”.

Gil

A programação da TEIA foi intensa demais. Organizada em oficinas, mostras, debates e apresentações, dispersou o público muitas vezes, perdido nos diversos locais simultâneos em que tudo acontecia. Uma das atividades da programação era “Cultura digital – Que porra é essa?”. Resolvi conferir. Eis que o debatedor... é nosso ministro Gilberto Gil!! Figura, microfone estilo Serginho Groisman, conversou com a pequena multidão largada em almofadas num espaço abafado da Casa do Conde.

Além de receber críticas, apontou a dificuldade em enfrentar os interesses por trás do monopólio da radiodifusão no Brasil, pregou o compartilhamento de conteúdos na web e defendeu que o direito ao acesso à cultura deve ser mais importante que o direito autoral. [Pena que declarou recentemente a intenção de largar o Ministério....]

Ação Comunitária do Brasil

Essa ONG, que existe há quase 40 anos no complexo da Maré e em Cidade Alta, no Rio, virou Ponto de Cultura e tem feito um trabalho incrível com os jovens dessas favelas. Foram eles que coordenaram a oficina de penteado afro, procurada por brancos e negros. Também venderam roupas lindas, feitas com silk e bordados que remetem à memória dos morros.

O grupo se apresentou no teatro Francisco Nunes com um show incrível, que durou duas horas. Meu conceito de capoeira finalmente chegou ao patamar merecido. Arrasaram. Teve ainda muita dança – maculelê, jongo, samba – e música, cantada por uma baixinha arretada, dona de uma voz incrivelmente forte.

Balanço...

Fiquei feliz em constatar que o dinheiro público anda apoiando iniciativas desse porte. Com 60 mil reais por ano para Pontos de Cultura como o maracatu Leão Coroado e o projeto Vídeo nas Aldeias, parece que finalmente estamos caminhando rumo à descentralização do acesso a políticas públicas de cultura.

A sensação de que “um outro mundo é possível” é muito mais latente durante a TEIA do que nos dias das duas edições do Fórum Social Mundial que presenciei (Porto Alegre 2003 e Caracas 2006). Ao menos, é o meu registro.

Em tempo: as fotos são de Élcio Paraíso, fotógrafo oficial da TEIA. Mais imagens em http://www.flickr.com/photos/teia2007.

2 comentários:

carolina disse...

E de uma hora para outra conseguimos fazer com que tudo, ou quase tudo, fosse realmente de todos!!!

A troca e o retorno entre nós, "o núcleo duro", como você, julita querida, apelidou e as pessoas foi emocionante e provocou um crescimento profissional e humano muito grande, acalentador e divertido!!!

Na terra de Guimarães conseguimos nos enveredar pelo grande Ser Tão das pessoas e do jornalismo!

Aos malucos do Nós da Teia, meu muito obrigada!!!

Mau disse...

Num li com cabeça de celião (que gera descendentes celianos) pela primeira vez um texto seu e... gostei muito!!
Jú, tesão mesmo, vc envolvida e transmitindo as sensações muito vivas que rolaram. Gostoso memo!
Tou aqui botando água no feijão e te esperando pro começo do mês, com muitos abraços e carinho.
Eu é que sou fã, não vem que não tem!
Amo amo,
Mau