terça-feira, 9 de março de 2010

A mulher e o vestido



















Passaram-se os meses, as emisssoras de TV, os protestos, as opiniões, o bisturi, o Carnaval. Geisy Arruda não é mais a mesma; escolheu uma entre as várias portas abertas após o escandaloso escândalo promovido pelos envergonhados alunos da Uniban. Não a condeno. Polyana e sonhadora, foi capaz de um grande feito: simbolizar o mais autêntico machismo reinante na nossa sociedade, emanado com força também pelas mulheres.

Geisy e seu vestido nos serviram de espelho para refletir o ódio do brasileiro contra a verdadeira autonomia da mulher. Por essas e outras, neste Dia Internacional da Mulher assumo trocar a bandeira lilás do movimento feminista por um ícone mais moderno e concreto da nossa atual condição social neste mundo chamado Brasil.

[O assunto rende muito mais em textos, charges e comentários afiadíssimos no blog Boteco Sujo; passe por lá!]

terça-feira, 2 de março de 2010

Teaser



Video gravado para uma passagem no Youtube do programa Planeta Minas C&T sobre Crimes Digitais! Vamos falar dos riscos e limites da Internet, das pesquisas feitas pela polícia federal e por pesquisadores da UFMG; além de contar histórias de vítimas de golpes e calúnias em sites de relacionamento...

[Serve de chamada para a próxima reprise, que vai ao ar na Rede Minas no próximo sábado, às 19h30. Até lá! ;-)]

segunda-feira, 1 de março de 2010

BH: Ame-a ou Deixe-a










“Paixão cruel, desenfreada”. Cidadão de Belo Horizonte: você precisa amar esta cidade. Mais do que isso: você precisa provar seu amor por ela. É esta a estratégia, cercada de imperativos, que um grupo de entidades privadas e comerciais ligadas ao turismo decidiu adotar este ano para “valorizar a imagem da capital mineira”. A campanha Eu amo BH radicalmente e provo é a continuidade da ideia original, de 2006, quando o slogan ainda não se estendia ao “e provo”. Notícias, cartazes e até show gratuito no Chevrolett Hall marcaram, há um mês, a chegada da nova fase.

Assumidamente, o grande objetivo é “despertar o amor do belo-horizontino pela cidade”. Mas cá entre nós: alguém já tinha ouvido falar em campanha de turismo voltada para os próprios moradores da cidade? Estaria o amor tão sonolento a este ponto? Será que surte efeito de fato?

O engraçado é que o adesivo Eu amo BH radicalmente é mesmo um sucesso em vidros de carro, estimulando versões futebolísticas ou religiosas como Eu amo o Galo radicalmente ou Eu amo Jesus radicalmente. Talvez também entrem na onda e comecem a provar tamanha dedicação com videos, fotos e wallpapers para computador, como se vê no site da campanha.

É nessas horas que ainda me sinto uma estrangeira em Minas Gerais.

[Abaixo, video com o chefe Túlio, do bar homônimo, onde estive na sexta-feira para apresentar a autêntica comida mineira de buteco a dois paulistanos. E olha que não sou filiada do Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau...]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mona Lisas mineiras











Pulamos o Carnaval. Literalmente. Desta vez, nada de desfile na Via 240 ou baile no Centro Cultural da UFMG. Sequer prestigiei os blocos de rua que começam a surgir em Belo Horizonte... Enfim, o tempo passou bem aproveitado em outros canais...

Fiquei devendo por aqui um comentário sobre a criativa exposição Cem Mona Lisas com Mona Lisa, em cartaz no Palácio das Artes até 21 de fevereiro. A mostra foi organizada a partir de 100 telas com releituras do secular quadro de Leonardo da Vinci feitas por artistas mineiros. Pela grandiosidade, a iniciativa já tem lugar garantido na próxima edição do Guiness Book. (Oh!!)

Na prática, o ponto de partida para os artistas parece ter sido a liberdade. Todos os quadros foram apresentados com a mesma dimensão de moldura, mas não houve restrição de materiais a serem utilizados. Por outro lado, algumas ideias de Mona Lisas se repetem – especialmente quando a protagonista do quadro é mostrada em versão brasileira.

Os olhos renascentistas ganham roupagem mineira em Gioconda de Vila Rica (Graça Malveira), onde aparecem incorporados no colorido corpo de Marília de Dirceu. A tela Mona Lisa mineira (Ronaldo Mendes) situa a figura em cenário de igrejas e festas de congado. Tem até a Monalisa de BH: negra, de cabelo afro e túnica tricolor, com o Palácio da Liberdade, a igreja da Pampulha e o parque Municipal de fundo.

Fantasias à parte, o melhor trabalho de interpretação contemporânea, na minha opinião, é Mona Lisa já não mais tão lisa (Lélia Parreira). Genialmente, os olhos enigmáticos se conservam no corpo de uma senhora sertaneja de pele enrugada e sem dentes. Apoiada numa cerca, lembra um dos tantos personagens que encontramos com facilidade no interior de Minas. Uma bela pintura.

O lado cômico ficou por conta de uma sacada mais “globalizada”. A Mona é pop (Lamounier Lucas) reproduz a versão original do quadro na capa da revista CARAS com a seguinte manchete:

Mona lisa abre seu coração
O sorriso mais enigmático da história da arte se encanta com a Ilha de Caras e revela estar feliz no Louvre

Adorei. E ainda é possível votar na Mona Lisa que você mais gostou. Espero ter feito uma sutil boca de urna para minhas favoritas...

domingo, 31 de janeiro de 2010

Estréia na Mostra de Tiradentes
















Enrolei, enrolei e, por fim, consegui prestigiar um dos eventos mais bacanas do calendário do cinema brasileiro: a Mostra de Cinema de Tiradentes. Já com o selo de atração mineira ultra recomendada, precisamos assumir que aquele é um clima muito especial, oposto ao que encontrei no feriado de 21 de abril, por exemplo. À época, vivenciei uma mini crise de pânico - culpa da lotação absurda e do trânsito congestionado por carros e carroças com capota da Hello Kitt.

Desta vez a cidade estava cheia, claro, mas com lugares para comer e espaço para caminhar. Nessas noites sem chuva, fiquei impressionada com a qualidade das projeções em 35mm em plena praça pública e com o respeito por parte do eclético público. Sobre os dois longas vistos no fim de semana, algumas rápidas linhas:

- Herbert de Perto – Documentário que recupera a trajetória dos Paralamas do Sucesso com foco nos principais fatos da vida de Hebert: a adolescência em Brasília, a mudança para o Rio, os primeiros shows, o sucesso, o acidente trágico. Filmado por grandes amigos do cantor [Roberto Berliner e Pedro Bronz], tem uma montagem impecável que recupera vasto material original e nunca antes visto. Mas de tão parcial, chega a ser um pouco cansativo. [Ao menos valeu para cantar músicas como “Óculos” e “Alagados”, assumindo que também já fui fã dos caras....]

- Elvis & Madona – Genial. A começar pelo roteiro: lésbica entregadora de pizza chamada Elvis se apaixona por travesti chamada Madona. Apesar das cenas e situações absurdas, a história é convincente e mostra um elenco afiadíssimo – com Simone Spoladore e Igor Cotrim nos papéis principais. Engraçado, romântico e emocionante, foi aplaudido diversas vezes ainda durante a projeção. Aposta do Tutu para o melhor filme nacional de 2010 e indicação de Almodóvar Brasileiro ao diretor Marcelo Laffitte! [Entrevista com o diretor no G1!]

**

E eu vou nessa porque amanhã é segunda-feira de verdade!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

É dia de feira

São Paulo, ainda. Em plena arrumação de fotos da pasta My Pictures, dei de cara com esses registros de agosto do ano passado. Um bom post para dar continuidade às "Paulistanices" - feira livre de rua, ocupando ao menos quatro quadras do bairro, com direito ao pastel que, infelizmente, não existe em Minas. Dezenas de recheios, versões doce e salgada, acompanhadas do indispensável caldo de cana... Delícia pura! Salivem!



segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"É bonita porque é feia..."














São Paulo, hoje, comemora 456 anos. De longe, torço para que a minha cidade tenha alguma trégua na chuva forte; para que as marginais deixem circular melhor o sangue da metrópole; para que alguma tranquilidade tome conta do centro; e para que as pessoas possam, por alguns minutos, encontrar algum conforto naquele caótico lar.

Fiquei feliz com duas recentes homenagens descobertas na Internet. A primeira, do ex-vizinho Zeca, retratou em imagens despretensiosas o percurso do ônibus Apiacás/ Pça Ramos, meu velho companheiro do bairro-centro. A segunda, publicada na revista da Folha deste fim de semana, é um ensaio fotográfico maravilhoso feito por coletivos de fotógrafos - entre eles, os amigos da Garapa. Da matéria, roubo o título deste post e toco o presente adiante.

*Uma das fotos do Zeca. Retrato do percurso; retrato da saudade.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Arte e Protesto















Não é a toa que as imagens de uma turma de sunga e biquini na praça da Estação, centro de BH, tenham se disseminado com tanta força entre blogs e sites nacionais. Mais do que uma cena insólita, tratava-se de um protesto – e bastante sério, do meu ponto de vista. Os manifestantes alertaram muita gente sobre o decreto recém assinado pelo prefeito Márcio Lacerda que proibe a realização de qualquer evento no local. Ou seja: esqueçam tanto os megashows com Fernanda Takai, Mart´nália ou Milton Nascimento quanto as comemorações de datas festivas como a Arrial de Belô e as apresentações do tradicional Festival Internacional de Bonecos (já relatada em fotos neste Tutu).

Ué! De que serve então aquele espaço enorme e sem sombra? Será que os casos de vandalismo são realmente significativos para justificar medida tão extrema?

Confesso que, se não fosse pela divertida mobilização “praiana”, eu mesma não teria dado atenção dediva a estas questões. É por isso que também vejo o protesto do sábado como uma performance artística – na qual os “performers” são, acima de tudo, cidadãos. Desde meus áureos tempos de trabalho no Instituto Pólis, já percebia que a mobilização política efetiva não poderia abrir mão destas novas manifestações. Foi assim que artistas e militantes sensibilizaram a sociedade sobre o drama das mais de 400 famílias ameaçadas de despejo no edificio Prestes Maia [como o ACMSTC]; foi assim que os riscos da “revitalização” do centro promovida pelo subprefeito da Sé vieram a tona [como no ato de escracho em pleno Morumbi...].

O melhor de tudo é que estes atos ainda podem ser muito divertidos.

E vamos aguardar o desenrolar do destino da praça da Estação! Até lá, os artistas mineiros contiuam mobilizados para transformá-la em clube público - Clique aqui para ver o engraçadíssimo video/teaser de chamada para mais atos neste e nos próximos sábados....

sábado, 16 de janeiro de 2010

D. Francisca II

Não é qualquer dia que se conhece alguém com uma história como esta – digna de um conto (ou ramance?) Roseano. Em pleno Hemominas, referência em banco de sangue no Estado, encontrei Francisca Segunda. Tagarela e forte, ela é mãe da Neide, de 43 anos, que faz transfusão toda semana para tratar de anemia falciforme. Apesar do sobrenome, ela não tem nada de nobre. Contou que o “Segunda”, registrado na certidão de nascimento, é pagamento de promessa feita pelo pai.

Nas palavras simples da mulher pobre, o pai sofria com a doença misteriosa do primeiro filho, chamado Francisco, que o deixava sem movimento das mãos. No auge do desespero, prometeu a algum santo que, curado o filho, todos os outros seriam batizados de Franscisco. A reza funcionou. E logo vieram Francisco I, Francisco II, Franscica I, Franscisca II e Franscisca III. Ela me disse que era uma loucura. Para chamar uns aos outros, só usavam o “Primeira!”, “Terceira!!”. Hoje, que as irmãs já morreram, fica mais fácil identificar-se como Franscisca. E pronto.

Dá pra acreditar? Enquanto isso, a filha Neide, nascida com a triste doença que a faz morrer de dor nas articulações e perder a visão paulatinamente, precisa mesmo é de sangue. Promessas não levam a muita coisa.

[Em breve, posto uma foto da dona Fransisca por aqui....]

domingo, 10 de janeiro de 2010

2010: Respire fundo

Então é Ano Novo. Primeiros dias de algum tempo livre para tomar fôlego antes do longo mergulho nas profundezas de 2010. Claro, sempre é possível espiar da superficie... mas bom mesmo é assumir o risco do novo, da descoberta, da surpresa. E poder ir longe.......

**

Não estive em Belo Horizonte durante os desastres provocados pelas chuvas da virada. Passado o temporal, reina agora o calor e a paz típica de janeiro. Trânsito tranquilo, centro mais calmo, comércio esvaziado. A cidade vira outra. Mas ainda nada parecida com a antiga vida urbana da década de 40...

Parque Municipal e Palácio da Liberdade sem grades. Ruas com bondinhos e poucos automóveis. Muitos pedrestes. Complexo da Pampulha dedicado ao lazer. Grandes cinemas no centro da cidade. Essas cenas quase idílicas da primeira cidade planejada do Brasil estão registradas em um documentário de 1949 gravado pelo Escritório de Serviços Estratégicos do governo dos EUA. A fonte, claro, é suspeitíssima. Mas o conteúdo é impagável! No Youtube, o vídeo está dividido em duas partes. A primeira fala especialmente do crescimento da indústria de Minas Gerais, impulsionada pela exploração de ferro. Itabira aparece como um novo e grandioso pólo, de onde partia a construção da ferrovia (...). E as pedras preciosas também surgem como protagonistas do interesse norte americano por este “povo amigável”.

Mas a parte dois é ainda melhor. Ali, BH aparece em lindas imagens em preto e branco, com destaque para a vida boa e os lugares frequentados pela elite já consolidada da época: casas espaçosas, escolas particulares [Santo Agostinho e Colégio Arnaldo, onde Drummond estudou], o Iate Clube e a Casa de Baile, na Pampula, o Minas Tênis Clube...

Enfim, vale a pena sentir a brisa nem tão antiga daquela capital planejada e sonhada pelos “Pais Fundadores” nas enconstas da serra do Curral, então com 2,3 milhões de pessoas... São 8 minutos de uma viagem ao tempo que ainda merece ser melhor compreendida como peça de propaganda política.